segunda-feira, 30 de novembro de 2009

uma vez, um verão

Nem pergunte o verão, pois não saberia responder. Só sei que faz tempo, muito tempo. Deveria ter uns 14 anos e, com o Rogério, resolvemos ir juntos numa excursão para Bertioga. Não conhecíamos ninguém, exceto Dona Iracema da igreja do padre Zé, que fizera o convite e, diante do preço bom e das perspectivas, resolvemos nos divertir. Para adolescentes tudo é aventura. E algumas aventuras costumam ser inesquecíveis.
As pessoas foram chegando pouco antes das 5 horas, o horário combinado. Deveriam ser uns vinte e havia gente de todo tipo e idade. Quando o ônibus chegou, um casalzinho subiu depressinha e ocuparam duas poltronas estratégicas lá do fundão, onde desapareceram imediatamente entre elas. Umas quatro senhoras de uns 70 anos acomodaram-se nos bancos da frente e, eu e Rogério esperamos sentarem-se as irmãs – Silvana, a loira e Silmara, a ruiva – filhas lindas de um juiz de direito, que todos os dias as levava ao colégio num opala preto e imponente do Tribunal de Justiça. Sentamos nos bancos atrás dos delas, na esperança de uma chance, nem que isso custasse uma condenação de 10 anos por assédio. Aos 14 ou 15 anos, nunca se sabe, mas valiam o risco.
Nisso, entram quatro grandões já oferecendo a todos um golinho da batida de vinho com abacaxi (eram 4 garrafões, dava pra todos). Mais uns casais de pais de algumas crianças com as próprias; umas cinco, acompanhadas de uma bola de plástico enorme. Naquela época essas bolas enormes eram um sucesso na praia. Não esqueceram as petecas, nem as raquetes de frescobol, claro.
Uma trintona encalhada, já famosa no bairro, com uma bíblia para distrair-se durante a viagem, sentou-se atrás de nós, ao lado de um crioulo com uns dois metros de altura e sem os dentes da frente, porém, com um sorriso muito fácil. A distância entre um canino e outro, enormes, parecia uma ponte apenas com as extremidades; o vão livre lembrava um “canyon”.
A princípio mostrou-se assustada, mas com o tempo, e umas goladinhas da batida, ela parecia até estar disposta a trocar umas idéias com ele.Por fim, um grupinho de moços e moças munidos de amor, violão, pandeiro e reco-reco de bambu. Alegria garantida ou sua viagem de volta!
- Ebaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
O ônibus fechava suas portas e começava ali nossa ida à praia. Com direito a tudo.Não passou muito tempo, começava aquela música que nos acompanharia a viagem toda:
- Num posso ficar nem mais um minuto com você... sinto muito amoooor, mas num pode seeer... moro em Jaçanã... se eu perder esse trem que sai agora, às onze horas... só amanhã de manhã.
Enquanto isso, a bola enorme ia e voltava dentro do bus; o garrafão seguia um trajeto parecido; os namorados do fundão soltavam uns suspiros e uis; as senhoras falavam da vida alheia; a trintona se engraçava com o negão e o Rogério tentava algum assunto com as filhas do juiz. Em plena descida da serra mais da metade das cabeças já giravam mais que a bola.
- ...e além disso, mulher, tem outras coisa....minha mãe num dorme enquanto eu num chegar...
Uma senhora comentava, entre amendoins, que tinha medo de atravessar na “barsa” e, ouvia a outra respondendo:
- Falar nisso, comprei uma dessas encicropédia pras criança. Diz que num tem melhor que a balsa.
Até a chegada na praia.
-Ebaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
Quatro crianças, então, entaladas na porta junto com a bolona. Quase dez minutos para conseguir descer alguém, entre sacolas com frangos e copinhos de batida de vinho com abacaxi, agora já bem mais quentinha. E o casalzinho ainda lá atrás, esperando talvez alguma coisa se acertar...
De repente, o ritual da chegada: se esticar todo e abrir os braços para o mar e o céu:
- ETA MARZÃO BESTA!
Como diria o Ziraldo.
Novo entalamento. A maioria lembrou que, na praia, bom mesmo é tirar a roupa de cima e deixar surgirem as sungas, calções, biquínis e maiôs Catalina de rendinha. Praia é pra ser aproveitada o mais rápido possível. Tiradas as roupas, todos foram curtir sua areia, inclusive o casalzinho com um ar meio cansado.
Entre os moços e moças, mãozinhas já se juntavam para espantar o medo das ondas. Após algum tempo, as velhinhas olhavam espantadas os pares bem grudadinhos (os homens apertavam bem suas parceiras para espantar o medo) e não demorou muito para uma mais desbocada perguntar:
- Essa coisa que veio do mar e grudou no meu maiô deve ser alga. Ou não? Que porra é essa?
E a outra rindo:
- Acertou na mosca, querida! Pois é!
Silvana comentava com Silmara:
- Precisava ter vindo com biquíni branco? Está tudo transparente. Você num tem vergonha?
- Vergonha eu tenho. O que num tenho é outro biquíni. Mas, ainda assim é mais bonito que biquíni de oncinha.
- Melhor de oncinha, que de tarântula!
E os garrafões de batida se bronzeando junto às toalhas, entre comentários de que, com a maresia, bebida alcoólica nem se atreve a subir. Os casais se “protegendo” juntinhos das ondas. O motorista do ônibus de pé na calçada - de calça azul marinho, camisa branca, gravata da cor da calça e cara de quem toma conta de tudo. Dona Iracema fazendo anotações e contas; de maiô e papel molhado. Meu amigo e eu cuidando dos bichinhos do zoológico, sem tirar os olhos. As crianças com a bola e as velhinhas arfando com o emocionante jogo de peteca. Os homens no frescobol e batida e o casalzinho, pra variar, lá no fundão do mar - bem longe. Ele parecendo que tinha se preparado para camping. Sua barraca ficou armada o tempo todo.
Hora do almoço. Chegam todos para o desejado almoço. A trintona com o crioulo, abraçadinhos agora. Em certo momento abriram o isopor e surgem dois frangos assados; foi quando ela percebeu que aquela falta de dentes na boca de seu parceiro tinha uma grande utilidade:
Numa fração de segundos ele enfiava uma coxa de frango inteira na boca e só puxava o ossinho do meio – as presas faziam o resto. O osso saia limpinho e era só mastigar o que os caninos detiveram. Ela olhava como quem admirava a eficiência e pensava nos frangos que poderiam dividir juntos até que a morte os separasse, na tristeza e na alegria
E tome batidinha de vinho com abacaxi, que agora lembrava vinho quente de quermesse. Talvez por isso, as velhinhas mandaram ver. Certo momento um rapaz oferece:
- Dou cem mil cruzeiros para quem achar meu relógio! Fui ver se era à prova d’água mesmo e acho que o perdi mais ou menos na direção daquele navio, numa onda alta... Quem sabe mergulhar?
Ao que alguém respondeu:
- Vou tentar. Me dá 150 anos para encontrar?
Tarde passando, alegria cada vez maior e a hora voltar. Todos cabisbaixos, chateados por um domingo tão cheio de emoções, ter sido tão rápido, tão fugaz. Dona Iracema tentando entender como ninguém, durante todo o dia, havia sequer procurado um banheiro. Não teve notícia de um único xixi.
Dois garrafões de água serviram para tirar o sal de todo mundo. Os maiôs, biquínis, etc, já deveriam ter secado – portanto - o melhor negócio era vestir a roupa por cima mesmo. Agora, Rogério sentava-se junto com a oncinha, enquanto eu cuidava da tarântula, alegres pelo bom entrosamento.
O casal continuava suspirando entre barulhos de bocas molhadas, escondidos lá no fundão como sempre.
- ...moro em Jaçanããããããã...
Mais batida - naquela temperatura que curaria pneumonia numa única dose. Cada um que se levantava, aquela marca de roupa molhada por baixo, mostrando uma sexy combinação de calças Lee e sungas molhadas, ou vestidinhos com biquínis. Até que, na subida da serra, começaram as dores de barriga e ânsias de vômito com umas seis ou sete paradas, excluindo as fervidas de radiador. Eu e meu amigo ríamos muito. Rimos mais ainda quando soubemos mais tarde que a ânsia de vômito da namoradinha (aquela do fundão) durou uns 3 meses. Casaram-se logo e a menina recebeu o nome de “Estrela dos Mares” - Stella Maris. Nunca soubemos se por ironia ou por inspiração.
-...e além disso, mulher, tem outras coisas...
As senhoras vieram agradecendo a Deus e perdoando as falhas de todos. As filhas do juiz nos fizeram justiça e nunca mais quiseram saber de mim ou do Rogério. Vibrei quando assisti o casamento da Trintona, agora ex-encalhada, numa coincidência de cerimônia (para eles) e missa das sete (para mim). Tocava a marcha nupcial, mas eu só conseguia ouvir:
- Sô filho único... tenho minha casa pra olhar... eu num posso ficar...
Aquele verão, posso garantir, jamais houve outro igual.
.
texto: paulo moreira
imagem: internet

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

apenas triste

imagem: olhares.com - portugal

domingo, 8 de novembro de 2009

oceano

Caminhava pela praia, a mente ia e vinha como que acompanhando o ritmo das ondas. Aqueles quadris eram assim: por vezes, mar agitado e ansioso, terminando sempre por uma explosão incontrolável – água encontrando as pedras – corpos explodindo amor; d’outras, calmo e compassado, imitando um berço imaginário, balouçando-se até encontrar repouso no sono.
Lembrava daquele alguém com o desespero dos sem razão e gritou ao mar aquele nome, pedindo ao vento levasse os sonhos e sons até o limite do horizonte, mil vezes. Até enrouquecer e quase enlouquecer.
Imaginava aquele amor à semelhança do oceano. Pela imensidão incalculável de tanto mar profundo; por tanto e profundo amar. E pediu a todos os deuses possíveis e impossíveis aquele amor de volta, rogando a si, o mesmo milagre do refluxo das águas inquietas.
Viu-se naqueles braços novamente e mais uma vez a sensação de estar inundado daquele alguém, como sempre, a quase afogar-se em seus próprios uivos misturados como salivas e secreções.
Olhou o céu e as estrelas e comparou-as à mesma aura que iluminava o quarto em cada mágica do amor. Do prazer cintilante e do suave brilho dos olhos cor de lua cheia, na tranqüilidade do sereno carinho após unhas cravadas, firmes ataques e armadilhas, luta e suor – que culminavam no quase desmaio feliz dos que venceram juntos a mesma doce batalha. Dos momentos em que faziam-se cúmplices contra as mesmas tempestades. Estava agora em total nulidade. Naufragara. Havia perdido sua embarcação, bússola e alimento. Junto a eles, sonhos, esperanças, razão de viver. Fora-se o tempo.
Imaginou as conchas e teve a lembrança dos dois dormindo em forma de. Lembrou-se das mãos que tomaram forma de concha em seu jeito de afagar e esboçou um sorriso. Quais seios, no mar, moldariam as conchas? Conchas no ouvido, revelam os suspiros e segredos do mar.
Uma lágrima escorreu até sua boca e sentiu aquele gosto salgado de pele. Não. Aquele corpo não era salgado. Era um agridoce único ao qual seu paladar se acostumara. Mar e amor não se explica o paladar, pensou. Lembrou das bocas milhares em que procurou, alucinado, aquele gosto e mortificou-se por ter, em tantos corpos, imaginado-se sempre estar amando aquele mesmo. Entre tantos gritos, ter ouvido a mesma voz. Entre estar vivo e ter morrido tantas vezes.
Reviveu os momentos em que, anos atrás, pensou todas as mesmas coisas e pediu a Deus; aos senhores e senhoras dos oceanos - com desespero, com angústia – a volta daquele ser amado. De espírito despido e inocente, suplicou como o mais desvalido dos mortais. Foi atendido.
Sabia que o mar devolvera-lhe o que julgava perdido. E viveu anos de ilusão, pensando estar feliz ao lado daquela mesma pessoa. Para um dia mais tarde, descobrir-se não amado e quem estava ao seu lado poderia ser uma pedra, um galho, uma gaivota morta na areia. Seria indiferente. Seu espírito virou lamento mudo.
Tinha consciência que tudo que as águas engolem, devolvem. Mas os seres vivos, devolve-os apenas corpos, carcaças. Tivera de volta, o corpo frio e rígido de seu amor, assim como cada gesto e atitude. Percebia, na rotina do dia-a-dia, que a essência havia se perdido. Os carinhos, os sorrisos, a cumplicidade, os filhos jamais vieram ou foram os mesmos. O oceano houvera entregado muito pouco do que levara. Nada e nunca voltaram a ter a mesma alma, percebeu.
Insano, continuou caminhando mar adentro. Agora iria, finalmente ao encontro daquele ser amado. Encontraria na escuridão das águas profundas a essência daquela alma e a ela se juntaria para sempre, como sempre lamentou ter sonhado.
E caminhou, caminhou. Rumo ao horizonte das águas e seu reino. Para não mais precisar caminhar.
imagem: olhares.com - portugal

domingo, 18 de outubro de 2009

presença

Presença é o acordar pela manhã e buscar o abraço de uma lembrança no travesseiro. Um nome que insiste em ocupar nossos lençóis arrumados e já sem a noite dos que, loucamente, os desarrumaram tanto. Lençóis de manchas outras que, agora, não passam de pequenos círculos transparentes de lágrimas de uma estranha e até doce emoção.
Presença é o sentir a brisa da manhã trazendo o calafrio inexplicável daquele medo bom do primeiro encontro. Olhar a xícara e ver entre sombras intraduzíveis da superfície do leite, o rosto de alguém te insinuando as mesmas promessas bobas. A paz daquele sorriso, com cappuccino e açúcar. É nosso querer bem criando cenas de rara beleza. O fantasma que se senta, sem nenhuma cerimônia, à nossa mesa.
É a angústia de sentir que no vazio da ausência, ficou a marca. Isso é presença. Marca. A impossibilidade de parar com as mãos, essa sombra que o pensamento não consegue apagar.
Presença é um vírus contraído que nunca mais nos desacompanhará. São as nuvens brincando de criar a mesma silhueta no céu. Querer ver o filme outra vez e mais outra. Absurda luz na escuridão do quarto.
Ser obrigado a lembrar de tudo, pelo simples fato de ouvir um barulho na porta. A certeza de que, nesse mesmo instante alguém pensa em nós e lembra as mesmas coisas, ao mesmo tempo, com o coração também apertado pela saudade. E, caso tivesse coragem, contaría-nos esta mesma história.
A dor do saber que nunca mais - é presença.
Presença é querer dormir para ter a possibilidade de encontrar num sonho. Teimosia em inverter a realidade deserta. Ver o sofá da sala totalmente ocupado por ninguém.
Presença é ser capaz de nos preenchermos inteiros de quem já não está. É afrontar a dureza real de uma falta infinita que essa pessoa nos faz. É ler em pétalas de flores, os recados que só nós soubemos.
Alguém a quem tanto amamos é assim. Passe o tempo que passar, aconteça o que acontecer, estará longe ou perto, não importa.
Importa é que teremos, querendo ou não, sua incansável, suave e eterna presença.
.
texto: paulo moreira
imagem: photoforum - rússia

domingo, 6 de setembro de 2009

a superstição do celular

Entre uma escola e outra, no meio do caminho, vinha a professora com um repentino e “esquisistranho” pensamento que, feito um pernilongo, começou a incomodar.
Não era supersticiosa, mas passar debaixo daquela escada do pintor no pátio no exato momento em que ele concluía uma letra Z no novo letreiro da escola, não a deixou bem.
- Ah! Bobagem, superstição!
Continuou em seu raciocínio. Semana que vem chegaria 11 de setembro e onze é um número esquisito. Onze é número primo. Não. Pensando bem, onze é um número gêmeo. Número primo é um que só se divide por 1 e por ele mesmo e o onze é assim, mas ele é parente mais próximo que um simples primo. Só pode ser gêmeo e, ainda por cima, daqueles univitelinos. Deve dar azar também, porque foi no dia 11 de setembro aquele caso das torres gêmeas. Número infeliz. Tipo do numerozinho egoísta que só se divide a “sipóprio” e, quando se divide, ao invés de restos - deixa escombros. Não se lembrava direito se aquele número era racional, natural, inteiro (inteiro não podia ser) e acabou, apesar da vaga lembrança das aulas de matemática, com uma conclusão brilhante:
- 11 é um número gêmeo, que não se divide por nada, exceto por boeings; faz parte do conjunto dos números irracionais, impossíveis e inacreditáveis, muito bem representado por “iii” (iii! Deu errado de novo!).
Precisava parar de pensar aquelas bobagens. Estava parecendo pesadelo de véspera de prova na faculdade. Tentou lembrar se suas provas caiam sempre no dia 11 e, quanto mais procurava lembrar, mais o dia 11 se fazia presente. Chegou a se convencer que se casara num dia 11 e questionou-se se não era novembro – 11/11 – Deus livre e guarde!
- Ah! Bobagem, superstição!
Afastou seus pensamentos como quem afasta pernilongos e, depois do primeiro tapa na orelha, já nem se recordava de mais nada. Continuou seu caminho, chegando à escola para mais uma jornada. Feliz com seus aluninhos, ouviu o sinal do intervalo e dirigiu-se para a sala dos professores para seu merecido cafezinho e descanso. Hora também de ligar para o marido para a atualização de broncas do dia anterior “Parte II” (a Parte I era sempre no horário do almoço). Sorriu, divertida, com a idéia de que, se o cachorro é o melhor amigo do homem, o da mulher é o celular. Ao abrir a bolsa, qual não foi a surpresa: alguém abrira sua bolsa e levara seu fiel amiguinho - Totó Nokia.
Frio na espinha, arrepio, tremedeira. Sem se dar conta ainda por completo da situação, lembrou-se de uma coisa que sempre dava certo nessas horas:
- São Longuinho, São Longuinho, se encontrar meu celular dou 3 pulinhos! Dou 30; 3 é muito pouco. Desculpa São Longuinho, sei que o celular vale mais... tá bom... 300 pulinhos!
Mas, dia útil e horário de trabalho, São Longuinho podia estar muito ocupado e, por via das dúvidas, o melhor era sair perguntando se alguém o vira. De imediato notou que o melhor amigo do homem pode ser mais rústico, mas basta chamar pelo nome, que aparece. Percebeu então sua genialidade. Correu para a secretaria e pediu que ligassem para o Totó. Ao ser questionada sobre o número, verificou que, desde há muito, esquecera o número. Procura daqui, procura dali, achou uma amiga que ligava sempre e forneceu de imediato. Suspense... a idéia não podia falhar. Sorriu quando atenderam. Mas, descobriu que a felicidade é algo muito transitório e fugaz quando aquela sensual voz feminina disse:
- Claro informa: o número discado está desligado ou fora de área. Deixe seu recado na caixa postal... A Claro agradece, é Claro!
- Claro! Claro! Claro que quem levou o Totó não iria atendê-lo. Meu Deus, como sou Tonha. Tenho mais uma alternativa: a Diretora. Pensamento feito, pensamento executado. E a diretora:
- Tem certeza que estava mesmo em sua bolsa? Não o esqueceu em casa?
- Claro! Sem trocadilho diretora, tenho certeza. Antes de começar minhas aulas xinguei meu marido por telefone, inclusive fiquei nervosa porque no meio da bronca ele começou a imitar toque de ocupado: “pim – pim – pim... seu amorzinho tá fora de área, depois a gente se fala”. Tem hora que ele é tão bobo...
A diretora não teve dúvidas e falou bem alto:
- VAMOS FAZER UM BOLETIM DE OCORRÊNCIA! AVISA PARA A PORTARIA QUE NINGUÉM ENTRA OU SAI SEM AUTORIZAÇÃO. AVISA TAMBÉM QUE SÓ DEVE ABRIR EXCEÇÃO PARA A VIATURA POLICIAL. Portaria sempre é bom dar a ordem bem explicadinha... Vamos ligar para a polícia.
Ordem dada, ordem cumprida. Ninguém entrou nem saiu. Só o policial. Tudo registrado, tudo documentado, tudo esclarecido e explicado. Só o Totó Nokia permanecia desaparecido.
Enquanto isso, nossa triste professorinha continuava sua aula, já sem muita animação, embora firme na sua tarefa. Pensava com seus botões:
- Eu tinha certeza. Minhas premonições não falham e sou capaz de apostar que no dia 7 de setembro, vou ter que desfilar debaixo de chuva. Número 7 é tão esquisito quanto o 11. É um número meio místico e, com a sorte que estou, é capaz de bem no meio do desfile e do Hino da Independência - o que abra as asas sobre mim - seja algum teco-teco perdido por causa da chuva. Droga, todo 7 de setembro chove...
- Ah! Bobagem, superstição!
Só que tremeu, ao lembrar-se de uma advertência do marido:
- Dar bronca em quem se ama, depois do almoço, dá indigestão. É mais perigoso que tomar banho de barriga cheia ou cafuné depois do almoço. Dá um azar danado!
Seria praga? Praga de marido pega mais forte que o de mãe. Rogou à Nossa Senhora do Patrocínio uma ajuda, mas parecia que a situação tivera o patrocínio da Claro mesmo. Antes eles sumiam só com o sinal; agora, parece que resolveram sair da abstração da linha e ir direto ao assunto. Imaginou ter ouvido uma voz do além dizendo que acharia logo o bem que lhe houvera sido subtraído.
- Ah! Bobagem, superstição!
Não demorou meia hora, chega uma aluna com o aparelhinho na mão:
- Achei fessora, achei.
E a menina havia mesmo encontrado, debaixo de uma pedra, num buraco pelo canto da escola.
Dessa forma, todos continuaram felizes para sempre.
A professora não esqueceu de ligar para o marido:
- Amor, levaram meu celular, mas já o encontrei. Só liguei pra dizer que te amo mais do que nunca e prometo te dizer isso todo dia na hora do almoço.
A diretora feliz por ter, a seu ver, resolvido a situação. Apenas achou engraçado ver a professora pulando com as crianças e dizendo para continuar a brincadeira do canguru que pula 300 vezes. “En passant”, falou para a professora:
- Você teve sorte de reencontrar seu celular.
Riu divertida, e emendou brincando:
- Pensei até em fazer alguma simpatia a seu favor... Parece coisa do Saci-Pererê. Você acredita nessas coisas?
Ouviu daquela mocinha toda segura de si:
- Ah! Bobagem, superstição!
.
texto: paulo moreira
imagem: olhares.com - portugal