quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

tempo de paz

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

no meio do caminho havia uma sirene

Debaixo daquele salto havia uma unha encravada. Sim, havia uma unha encravada debaixo daquele salto. Era a minha unha do dedão do pé direito para fora um pouquinho da mesa, enquanto ouvia o cantor dando uma pausinha com um poema de Drummond. Era um barzinho noturno chamado “Balcão de Pedra”, na região de Santa Cecília, em Sampa, no qual eu adorava passar as madrugadas de sexta para sábado. E ela veio se afastando, mais e mais, até que numa bushística demonstração de pontaria cravou aquele saltinho de uns 12 cm bem sobre minha sofrida unha. Soltei um grunhido sufocado, daqueles à beira de um vexame, enquanto ela caia sobre o meu colo. Mas, toda beira de vexame é escorregadia e a cadeira virou com nós dois. Prejuízo total. Esparramados sobre meu corpo - o meu whisky, cheinho e recém-entregue pelo garçon, na camisa: a cuba-libre, que ela segurava, como fosse shampoo para meu cabelo: incômodas pedrinhas de gelo e uma também incômoda bunda sobre o meu peito, tirando-me o fôlego.
A imagem que se vê de baixo para cima quando todos estão rindo de você, parece filme de terror. Todos rirem não me importava tanto quanto ela gargalhando largada sobre mim. Parece ter demorado séculos para que visse minhas mãozinhas acenando para que saísse dali o mais urgente possível. O galo na parte de trás da cabeça, deu-me a sensação de ter me erguido pelo menos uns 10 centímetros do chão. Não sabia se ria ou chorava, ou o que doía mais: a unha encravada, a cabeça, o peito ou o mico.
Terminada a sessão de crise de gargalhadas, deu-me a mão e levantei-me meio zonzo e meio rasgado.
- Ei, desculpe. Machuquei você, né? Meu Deus, como sou desastrada! Acho que estou zonzinha...
Estava morrendo de raiva, mas ao ver aqueles olhinhos azuis de cãozinho arrependido, resolvi não esticar o drama. O jeito era rir também, até para poder minimizar o mico.
- Machucou sim, caso não tenha percebido. Zonzinho, agora também estou... Você assistiu Terremoto? Está passando no Cinespacial.
- Desculpe, não consigo parar de rir. Qual o seu nome?
- O que restou de mim, chama-se Paulo. Tornados sempre têm nome de mulher, qual o seu?
Estendeu a mão direita:
- Silene, muito prazer. Paulo, por favor, me perdoe. Diz que me perdoa?
Quem então desatou a rir fui eu. Sirene, ora, sirene!
- Espero que seja a Sirene de uma ambulância. Estou precisando.
E fiquei gargalhando feito um idiota da minha própria piada. Não tive resposta. Aqueles olhos azuis estavam marejados. Linda mulher, me dei conta. Percebi que ela rira o tempo todo de nervosa. De vergonha pelo que provocara e por estar um pouco “altinha”. Agora estava perdida e triste. Estava sendo muito cínico com ela, afinal não havia sido proposital.
- Sirene, vem cá. Sente aqui comigo e nossos amigos. Sua cuba estava gostosa. Vou pedir outra e outro whisky, assim brindamos ter nos conhecido.
- Obrigada, Paulo. Vou pedir uma toalha para secar você. Tem certeza que não precisa ir a um pronto-socorro ou farmácia?
- Nada que uma boa noite de sono não cure.
E foi assim que conheci Silene. A quem passei chamar “Sirene”, para os amigos.
Não conseguia imaginar como uma garota tão desastrada e desligada pudesse ser aeromoça. Isso. A avoada Silene era aeromoça. Não demorei muito a perceber que tínhamos uma espécie de sina, uma escala pela vida.
Por volta das quatro e meia da manhã, vou levá-la para seu apartamento. E lá mesmo ela conseguiu recuperar minha roupa cheirando bebida, meu humor, meu romantismo e a integridade física com uns pinguinhos de merthiolate. Acordo em torno de 11 horas da manhã com uma cotovelada no olho, advindo de uma virada brusca de uma agitada dorminhoca.
- Ei, amor. Já acordado? Por que acordou tão cedo?
Ponho-me a rir e ela imagina que estou rindo da cena da madrugada no “Balcão de Pedra”. Nada disse. Não queria criar mais cenas de constrangimento.
- Deve estar cansado. Seus olhos estão fundos...
Os dias foram passando e entre as escalas de vôo e os fins de semana, ela ligava e passávamos horas ao telefone. Minha mãe ficava doidinha. Três, quatro horas falando com a aeromoça.
Mas, nossa saga não pararia por aí. Certa noite, surge na porta de casa:
- Vem. Uma amiga me falou de um motel muito legal. Teto solar sobre a cama, banheira do tamanho do nosso amor, colchão d’água, cozinha árabe, essas coisas. Tem que ser agora, anjo! Hoje, sua Silene quer aterrissar sobre você.
- Vê lá. Cada aterrissada sua eu saio todo quebrado.
Rimos juntos.
Mas, parece que uma nuvenzinha sempre nos perseguia. Nesta noite, não cheguei a ver estrelas por 10 minutos. Começou a garoar sobre nossa cama. Levantei-me então para apertar o botão que fechava o teto solar (ou lunar), enquanto ela permanecia deitada sobre o colchão d’água. Pulei para o alto e caí deitado sobre a cama. Com o repuxo do colchão d’água, vi minha musa decolando rumo ao alto e caindo estatelada sobre o chão. Novamente não sabia o que dizer. Ela me olhava assustada com a saída forçada. Foi difícil segurar o riso e percebendo isso ela dava pequenos socos no meu peito:
- Vingou-se agora? Está feliz?
O jeito foi convidá-la para um banho. Da ducha só saía água gelada, ela reclamava. De frente para ela, disse para abrir toda a água quente e ir fechando a fria aos poucos. Fechou toda água fria.
- Agora sim, amor. Ta uma delíciAIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII UIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII. AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH ME QUEIMEI TODAAAAAAAAAAAAAAAAA.
E queimou-se mesmo. Suas costas vermelhas davam dó de ver. As lágrimas escorriam por sua face. Estava patético vê-la sentada no vaso sanitário, desprotegida e nua, chorando desconsolada. Sem poder rir.
Antigamente o castigo vinha a cavalo. Nos tempos das aeromoças, o castigo começou a vir de Boeing. O meu não tardaria. Algo, como uma Sirene, dava-me um alarme que viriam mais coisas.
Continuávamos nas conversas telefônicas. Quando Silene ligava, corria para meu quarto e trocávamos juras de amor por horas e horas. Certo dia, toca o telefone e minha mãe grita:
- PAULOOOOOOOOOOOOOOO, TUA SIRENE NO TELEFONEEEEEEEEEEEE.
Meu quarto ficava no andar superior. Tinha que passar pela cozinha, subir as escadas e ir para o quarto. No início da escada havia uma quina de mármore a uns 25 cm do chão.
No meio do caminho havia um mármore; havia um mármore no meio do caminho. Nem é necessário dizer que na correria doida, bati aquela parte nobre - o filé mignom de cima do dedão, querido Drummond. Que dor lancinante, que inferno de Dante! (valeu a rima). Mas, naquele momento o que veio aos lábios foi um glorioso palavrão interrompido:
-PUTAQUIP.....
Enquanto agachava-me xingando, para apertar o dedão de unha encravada, que doía mais que encontrar a mãe nos braços do inimigo fumando o cigarrinho do depois, meu joelho bateu no queixo e ganhei ainda de brinde uma bela mordida na língua, que abriu na hora, jorrando sangue pela minha boca. A unha encravada também cortou o dedão e sangrou. Até hoje não esqueço minha mãe:
- Ta vendo, filho? Xinga. Xinga que Deus castiga!
Rolei pelo chão sem saber se ria, se chorava, se xingava ou se morria. Por fim murmurei baixinho, para nem minha mãe e nem Deus ouvirem direito:
- Merda...
- Não vai atender a moça, filho?
- Ah, mãe, eu quero que a moça... que a moça vá... que a moça vá... me ligar outra hora. Agora não. Diz praquela anta voadora que outro dia eu ligo. Essa mulher parece praga do Moisés. Isso não é amor. É infecção.
Passados alguns dias, minha mãe distraidamente pergunta:
- A tua Sirene não ligou mais. Por que não fala mais com ela, filho? Foi bom o que aconteceu aquele dia, pois conseguimos cortar o canto da unha encravada. Têm males que vêm para bem.
- Tem males que vem para estrepar a gente, mãe! Para não dizer outra coisa!
- Ué, tanto grude e agora assim? Esqueceu sua menina-ambulância? Desmancharam?
- Não, mãe. O problema é que, qualquer dia, ela viria me ver com avião, tripulação, passageiros e toda a VARIG. Acho que no quintal não vai caber. Não desmanchamos.
Pensei melhor e concluí:
- Tivemos alta um do outro.

texto: paulo moreira

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

morrer de amor

Os dias sem esse alguém são aqueles dias de frio
De mãos trêmulas, dos músculos enrijecidos
Da boca repuxada, ar gelado quase assobio
Busca de mãos quentes, de calores perdidos
Crônicas insônias, cobertores que não suprem
Frios na alma são chicotes de gelo em couro
Andar descalço em desertos invertidos que nevam
É procurar carinhos e apenas encontrar vácuos
Câmara fria que nos mantém o corpo inerte
Abaixo de zero, nada se move, nada diverte
São as árvores sem folhas, arrasadas pelo gelo
É saudade congelada, queimando em desespero

Os dias sem esse alguém são as noites escuras e horríveis da solidão
Insistem nossos braços gelados tateando em cegueira pura
Tenebroso, o medo revolto dentro de nosso próprio porão
E atravessam o quarto os sons agudos da amargura
São os lamentos do que não se fez; são remorsos
Morrendo, frases sem luz perdendo palavras
Capuz sufocante que castra os olhos
Entrecorta o fôlego, traz lágrimas
Tudo então torna-se pequeno
A vida perdendo a razão
Congelados os restos
Sem brilho, assim:
Sem gestos
Escuridão
Fim

paulo moreira

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

fred mercuryo & felyn@ cross

Após 19 horas e 56 minutos de viagem da cidade mais próxima, Fredemax Moreyra do Couto desembarcou na plataforma 1 - uma faixa amarela em frente ao Empório e Loja de R$1,99 Souto Mayor - da rodoviária da progressista cidade de Vitória das Antas; divisa entre os Estados do Amapá e de Desespero.
Roupas grudadas no corpo pelo suor e poeira, exibia no cabelo oleoso, um singelo pega-rapaz estilo superman, enquanto seus olhos apaixonados procuravam atentos por Felícia Eulina Cruz do Souto Mayor, ou melhor, Felyn@ - que era seu jeito carinhoso de tratá-la.
Conheceu Felyna numa sala de bate-papo (Idades - 40 a 50) do Terra, uma semana após ter ganhado um computador – um tal de XP - na segunda parcela de um consórcio de 48 meses . Sem dúvida, após 20 anos do final do casamento e perda do último emprego, a sorte parecia sorrir finalmente. Agora, mais do que nunca, tinha certeza que uma inteligente frase criada por ela, continha uma profunda verdade, assim como quase todas as frases ditas num chat:
“Nada acontece ao acaso!”
No decorrer da viagem, cada frase trocada com a amada desde o início, ia passando por sua cabeça.
Fred Mercuryo: Boa noite para a gata mais linda da sala. Vamos tc?
Felyn@ Cross: Vc nem me conhece para saber se sou gata. Sou felina. Uma loba que não ta a fim de tc com ninguém...
Fred Mercuryo: rssss... uai, então o que vc ta fazendo aqui? Só uma coisa... loba é felina? Tem certeza?
Felyn@ Cross: to só lendo a sala... Na faculdade, todos gostam de ler. Loba deve ser felina sim... canina naum, naum sou caxorra... Nem ovina... se é que quer me chamar de galinha...
Fred Mercuryo: ???
Felyn@ Cross: Se fosse peixina, meu nick seria Sereya, e não pyranha, que nem vc ta insinuando... Sei lá, vc ta me confundindo e vamos parar por aqui... homem é tudo igual... conheço essa história... daqui a pouco vai querer me ver pelada na cam
Fred Mercuryo: ei... não vamos brigar... nem falei nada... Fica assim: Loba é do grupo dos mamógrafos... ou mamígrafos... isso... vc é uma loba mimeógrafa...rssssssss
Felyn@ Cross: mamíferos, tonho. Olha, dá um tempo, to ocupada aqui no reservado...
Fred: (15 minutos lendo mensagens dos outros, com a certeza que aquela loba-felina-mamífera não era para o seu bico)
Felyn@: ei... vc ta aí? Ou ta arrepiando as moças no reservado...? kkkkkkkkkkkkkkk
Fred: to sozinho...
Felyn@: ô dóóóóóóó
Fred: é sério, sou novo aqui...
Felyn@: sei... rsssss
Fred: ...tudo bem, vc não acredita... vou sair... xau
Felyn@: ei, lindinho... pera. Eu tava brincando... acredito em vc.
Fred: entrei na net essa semana... só aprendi o geito de tc pq fiquei obs... axo que estou craque...
Felyn@: desculpa, viu? Fui durona com vc, mas aqui é assim. Os homens entram na sala sempre com a mesma conversinha... Qual o seu nome? (e vão achando coincidências em tudo...) Trabalha em quê? De onde vc tc? Casada ou largada? Tem filhos? Qual é a sua idade? O que vc faz na faculdade? Vamos pro reservado? Sempre a mesma coisa. Essa gente parece que num tem a menor criatividade... Depois, vc sabe o que querem que role, né?

Fred: ...vi muito disso esses dias...
Felyn@: ...num esquenta... com as mulheres é a mesma coisa... tudo falsa. Se vc arruma alguém, ou percebem que vc ta numa boa, vem sempre uma anônima te chingar na sala...
Fred: xingam, mesmo...?????????
Felyn@: kkkkkkkkkk gostei da sutileza.... chingam com CH que é pra ofender mesmo... (eu tava brincando... rsss)
Fred: ... nem sei o que dizer...
Felyn@: ...qualquer coisa que vc disser eu vou gostar Fredinho...
Fred: .... ah... num me chama de Fredinho não. Dá a impressão que tudo em mim é pequeno....
Felyn@: ... rssssssss... bobinho... sei que seu coração é grande...
Fred: é....?
Felyn@:...é...
Fred: Posso te perguntar uma coisa? Qual é o seu nome?
Felyn@: o verdadeiro?
Fred: vamos combinar uma coisa? A gente nunca vai mentir um pro outro, ta? A mentira tem pernas cheias de varizes.
Felyn@: Felícia Eulina. Combinado
Fred: Eu devia ter adivinhado. Putz... que criatividade... FE....e LINA. Genial... Sobrenome estranho... COMBINADO. Num é Colombini? Tenho um amigo chamado Colombini. Ele tem nome de loja de guarda-roupa e guarda-comida... É Combinado mesmo?
Felyn@: Combinado que nunca vamos mentir, bocó! o Y vem do charme do meu sobrenome “Mayor”. O “Cross”... é Cruz em inglês. Percebeu a sutileza? E o significado de felina é pelos motivos óbvios. grrrrrrrrrrrrrrrrrr
Fred: Que coincidência... eu sou Moreyra com ypissilone tb... Fredemax Moreyra do Couto. Parece nome de general do exército, num parece? E vc, Mayor... Mayor gata... rsss
Felyn@: ...num fala assim que eu paxono... rssssss (toda corada aqui...) e pq Fred Mercuryo?
Fred: É que eu era balconista de uma farmácia. Sempre gostei de aliviar a dor dos outros, embora nem todos gostem de aliviar as minhas. Minha mulher fugiu com o dono da farmácia, axo que pelo dinheiro. Ele me demitiu, vendeu a farmácia e levou Úrsula Cristina, minha mulher, deixando um bilhete dizendo que desde que a viu pela primeira vez, soube que eram feitos um pro outro. Ela havia ido lá duas vezes pra tomar injeção... imagine...
Felyn@: Amor à primeira nádega... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
E ela fez papel de amiga úrsula mesmo.... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. A Ursa tava com o mel... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Fred: Pô, num faz assim... eu sofro até hoje com isso. Enquanto eu contava, molhei todo o meu teclado e vc rindo de mim...
Felyn@: desculpa gatinho... é que sou uma pessoa muito divertida... principalmente depois de uns 20 minutos da fluoxetina... num fica triste naum... Sempre que algo ruim me acontece, penso comigo: Nada acontece ao acaso. Veja... se não fosse isso, não estaríamos aqui. Agora... esquece o farmacêutico e aquela vagatriz... e fala o resto enquanto eu vou fazer xixi... pera...
Fred: o que é vagatriz?
Felyn@: uma mistura de vagabunda com meretriz..... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, hoje eu to hilária... vixi... fiz xixi na roupa de tanto rir... por sua causa... peraaaaaaaaaaaaaaaa
Fred: ...daqui pra frente só respondo por monossímbolos... vc ta mangando comigo...
Felyn@: continua... prometo ficar monossimbólica tb nas respostas... rsss
Fred: ... continuando... fiquei tão desorientado, que peguei uns calmantes vencidos que havia levado da farmácia, na hipótica de precisar me suicidar com emergência, e tomei uns 30 comprimidos de Valium 5.
Felyn@: E funcionou?
Fred: FUNCIONOU, ANTA. VC TÁ CONVERSANDO COM MEU COVER...O COVER QUE ME ENTERROU... ORA, TEM DÓ. Lógico que, o remédio vencido devia ser um Valium Zero. Ou Valinada.
Felyn@: ÔÔÔ... outra coincidência... eu moro em Vitória das Antas (A cidade verde)
Fred: Fica em Marte? Kkkkkkkkkkkkkkk .... ou é pq num falta alimento? Kkkkkkkkkkkk... não pude deixar de pensar no Fred Mercury... We are the champions, my friends... Isso, na sua cidade, deve ser hino.... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Felyn@:... Não entendi... fica no Amapá... mas, e daí?
Fred: Daí que fui prum bar, tomei duas garrafas de caninha da roça e acordei no pronto- socorro, depois que uma Kombi véia me atropelou...
Felyn@: prometi não rir mas, depois de tudo isso, ser atropelado por uma Kombi véia...
Fred: ...é muito humilhante ser atropelado por uma Kombi véia... é ridículo, mas pode rir à vontade...
Felyn@: menino... eu to toda mijada.... a barriga dói... nunca ri tanto. mas, prometo ser discreta... rss
Fred: Seguindo... foi quando pensei uma coisa, não com as mesmas palavras que vc, pq a frase é sua, mas.... NADA ACONTECE AO ACASO...
Felyn@: ... fui feliz quando criei essa frase... concordo...
Fred: Descobri que poderia sim, curar as pessoas dos males do corpo, da alma; curar os males de corações feridos, tal qual o meu. A partir de então, já que fiquei todo quebrado e não arrumo emprego, exerço a digna profissão de Benzedor...
Felyn@: Uiaaaaaaaa... que lindinho. Sabe, enquanto vc contava, meus olhos se encheram de lágrimas. Me emocionei... inundei tudo aqui... Sua história é muito comovente.
Fred: Fico feliz por terem sido lágrimas desta vez...
Felyn@: mas, me diz: vc cura o que?
Fred: Mau olhado, quebrante, inveja eu sei cortar, cobreiro, criança com bicha, micose de contato, micose de praia, micose psicológica, micose de unha...
Felyn@: Criança é fácil curar... é só afastar das más companhias. Mas vc é doutor em micose, heim?
Fred: Tempos modernos. Tenho 114 mantras só pra micoses.
Felyn@: Mantra? Tem mantra pra lombriga?
Fred: Em tempos de globalização, benzeção é coisa do passado. Mantra é melhor e melhora o rendimento.
Felyn@: Vc cobra pra benzer?
Fred: Não... imagina... Digo que, se a pessoa puder, quiser e sentir-se bem em colaborar com, pelo menos dois reais, seria bom para a manutenção das velas.
Felyn@: Então ganha muito...
Fred: Nada... conjugar as coisas é difícil... os que podem não se sentem bem ou não querem. Os que querem não podem.... e assim vai indo... Os que acabam colaborando, invariavelmente vão pela opção “pelo menos dois reais”...
Felyn@: Nossa... ficar livre de uma coceira na virilha, por apenas dois reais é muito pouco. Certamente, pagaria muito mais para me ver livre da minha...
Fred: Qto acha que vale?
Felyn@: Uns cinco...
Fred: Só?
Felyn@: Uiaaaaaaaa.... é mais que o dobro...
Fred: Tem razão... tem semana que não ganho isso...
Felyn@: Gosto da sua sinceridade...
Fred: Sou pobre, mas sou limpinho... kkkkkkkkkkkkkkkkk Adoro essa piada... conhece?
Felyn@: pera que vou tomar café e acender o cigarro...
Fred: Sei que vai achar chato, mas quero te fazer umas perguntas...
Felyn@: Já sei... aquelas do cadastro.... rssssss
Fred: Trabalha em que?
Felyn@: Prendas do lar
Fred: De onde vc tc?
Felyn@: Vitória das Antas, já falei... rsss
Fred: Casada ou largada?
Felyn@: Larguei. O meu e o dele era o mesmo outro.
Fred: Filhos?
Felyn@: Uma menina
Fred: Idade
Felyn@: 35
Fred: O que fazia na faculdade?
Felyn@: Contabilidade. Valeram esses anos... Ano passado consegui, enfim, me ver livre...
Fred: Por que está na sala dos 40-50? Por que não a dos 30-40?
Felyn@: Gosto de homens nessa faixa etária
Fred: Homens?
Felyn@: rssssssssss...Procurava um homem... quis dizer... acho que achei.... rsssss (corada aqui.....)
Fred: Tb acho que achou... (corado tb.... sou tímido... rsssssss)
Felyn@: Fred....
Fred: Fe...
Felyn@: Vamos tc no reservado? É melhor... aqui tem muita inveja...
Fred: (reservado – o que se fala no reservado não se publica)
Felyn@: (reservado – o que se fala no reservado não se publica)
Fred: (reservado com elevação de temperatura e coisas que não se publicam)
Felyn@: (reservado com elevação de temperatura e coisas que não se publicam)
Fred: (reservado pegando fogo... com coisas que não se publicam)
Felyn@: (reservado em chamas tb... com coisas que tb não se publicam)
Fred: aperta uma tecla errada e tira a conversa do reservado, sem perceber
Felyn@: (reservado em pleno incêndio e gritos desesperados)
Fred: ... AGORA, MINHA CADELINHAAAAAAAAAA... SEPARE AS COXAS...
Felyn@: na confusão do incêndio também aperta a tecla errada
Fred: ...aaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Felyn@: OHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH FRED... POE TUDO
Fred: (de volta no reservado: xiiiiii. Deu zica, anjo. 38 pessoas acabam de ler o nosso orgasmo...)
Felyna: (de volta no reservado: Vixi... Voou espermatozóide pela sala, Fred...)
Fred: (O que a gente faz?)
Felyna: (Eu é que vou saber, Jumento Idiota....??????????????????????? Sei lá... disfarça...)...
(pausa tétrica, 2 minutos seculares)
Voltando à sala normalmente....
Fred: COMO ESTAVA TE CONTANDO... A LAIKA, MINHA CADELA É ENSINADA. (desculpe, coloquei no maiúscula sem querer) ela separa as cestinhas com os lençóis, fronhas, COLXAS... precisa ver que gracinha
Felyna: Vc fala dela com um carinho... faz até poemas pra ela... é lindo... vc é um poetudo.
Fred: Sou POÉTICO, anjo... deixa de fazer brincadeiras com a minha sensibilidade...
Felyna: O papo está tão bom, novo amiguinho. Obrigada pela sua gentileza, pelo respeito... me passe seu Messenger que qualquer dia eu te adiciono, mas agora, preciso ir para os braços de Orfeu...
Fred: Não é Morfeu????????
Felyna: Sei lá, to tão sem rumo hoje kkkkkkkkkkkkkkkk Dormir com o Orfeu ou o Morfeu tanto faz, vou dormir mesmo sozinha, como sempre....kkkkkkkkkkkkkkkk Os homens da mitologia só dormem com deusas. Nossa, três da manhã e eu continuo hilária.... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Fred: Então, minha deusa, vejo que poderemos ser bons amigos. Beijussssssss

Já no Messenger:
Fred: E aí, vc acha que colou?
Felyna: Menino, vc é inteligentíssimo. Tem gente na sala que vai querer comprar sua cadela ensinada... rssss
Fred: Sei não. Nem eu acreditei em mim...
Felyna: Nem podia, né? O chato é agüentar a falacão maldosa... perguntarem se vc tecla com 3 mãos, essas coisas... Uma coisa, ao menos, tenho certeza: todos conhecem a LAIKA... e vários lamentaram não serem burros o suficiente pra confundir poetudo com poético rsssssssssssssssssssssssssss
Fred: Fe... vc acredita em amor à primeira teclada?
Felyna: Mais que ninguém, Fred... Uma coisinha.... foi tão bom...
Fred: Vem cá... abraça eu. Essa da foto é vc?
Felyna: Sim amor. Mas, não é uma foto atual. Sinto-me hoje, mais bonita... Mais plena.
Pena que não tenho cam pra te enviar um sorriso...
Fred: Melhor pra beijar a nuca... Adoro beijar uma nuca. Vejo o sorriso pela alma, fique tranqüila.

Dois anos se passaram. E Felyna entregou-se de corpo virtual e alma real a esse homem. Dele, pouco perguntava; apenas lhe dedicava todo carinho que podia. Por sua vez, ele crescia a cada conversa, em cada momento junto. Sonhava com o momento de tê-la nos braços.
Muitos cães adestrados, muitos poetas revelados e o pessoal da sala de bate-papo já tinha até planejamento de madrinhas, padrinhos, manual de lua de mel em CD, preparos para a caravana com um ônibus pintado “NICK-NÚPCIAS” na lateral todinha (criatividade de pessoal de sala é feito dízima periódica – tão sem fim, que chega a irritar), uma “Caravan” dourada que transportaria 8 com fobia de ônibus, tesoureira administradora de fundos para churrasco, migas, migos. Até sacerdotisa da Sem-Sono-Oiê (lançamento da turma espiritualista da madrugada) para realizar o enlace. Tudo virtual, claro!

E agora, o coração de Fred pulsava mais forte. Em alguns minutos, estaria junto de sua Felyna amada. Quinze minutos e nada. E ele ali plantado ao lado de duas malas cheias mais de mantras que de roupas e uma caixa com o computador do milhão. O PC, em dois anos, dera mais de um milhão de problemas, mas continuava firme e forte. Aquela camisa com desenhos de coqueiros do Havaí, estava insuportável. Tanto quanto a vontade de fazer xixi, mas o pessoal do empório cobrava R$0,50 pelo empréstimo da chave do banheiro. Como ele só possuía uma nota de R$50,00 obteve da balconista uma resposta extremamente simples:
- Não temos troco, senhor, mas não precisamos discutir por isso. Continuo com minha chave e o senhor continua com seu xixi.
Sentiu vontade de dar uma gargalhada na cara dela, porém, se o fizesse, repetiria uma cena que já lhe havia marcado muito.
Vê uma senhora aproximar-se e vai ao seu encontro:
- Senhora, por favor, estou procurando por uma mulher de, aproximadamente 37 anos, morena, cabelos curtinhos, com uma filha adolescente ou talvez até criança... Seu nome é Felícia Eulina Cruz...
- O que? O que você leu na cruz? Deve ter sido INRI... desculpe, sou meio surdinha.
Falou o mais alto que pode:
- FELÍCIA EULINA CRUZ
- Fred, é você, meu amor?

Quando voltou a si, estava num quarto com móveis antigos, janelas abertas. Aquela senhora não tinha nada de feia, não. Ao contrário; parecia ter uma indefinível luz. Olhou e a viu sentada diante de um PC, bem sorridente. Pensou haver enlouquecido.
- Oi, amor, acordou? Fiquei preocupada, mas acho que é o cansaço da viagem. Fiquei ao seu lado esses dois dias. Puro carinho. Nossa, você é lindo mesmo... Só está cheirando mal, porque deve ter rido tanto quanto eu quando te conheci. Não consegui te levantar para dar banho, mas isso se resolve, amor. Nada acontece ao acaso, lembra?
- Amor uma pinóia. Charlatona, Vagatriz, Mentirosa... Você me enganou por dois anos. Estelionatária sentimental. Bem que me disseram que na net não tem nada que seja verdadeiro. Se para amor houvesse PROCON, te acusaria de propaganda enganosa. VELHA SURDA E ABSURDA! Quero sumir daqui. Meu Deus! Comprei um Ford Galaxie com 30 anos de atraso!
A Felyn@ em lágrimas:
- Escuta, não me trate assim. Não sou uma mercadoria da qual possa fazer propaganda enganosa. Jamais menti para você. Sempre lhe dei o melhor do meu amor e pouco de ti perguntei. Apenas passei a te amar ainda mais, por amar-me em razão da minha essência de ser humano. De mulher.
- Você é louca? Lembro de tudo que te perguntei direitinho, linha por linha do que perguntei. Você disse ter 35 anos.
- Também lembro de cada linha. Eu disse a idade da minha filha. Perguntou-me se tinha filhos, respondi que tinha uma menina. Então você perguntou a idade. Na época ela tinha 35 anos. Não menti. A propósito, isso nunca me importou, pois sequer sei a sua idade. Não ocorreu-me perguntar.
- Basta ver seu cinismo ao chamar uma mulher de 35 anos de menina.
- Não sou cínica, sou mãe. Se viva eu for quando ela tiver 70 anos, continuará sendo a minha menina.
Ao olhar para seus olhos, percebia a serenidade de suas verdades. Inquietou-se, mas prosseguiu. Ela o houvera enganado, sim. Saberia achar suas contradições.
- E a faculdade? Contabilidade, anos nela e depois livrou-se, formando-se, é claro.
- Não, criança. Trabalhava no departamento de contabilidade da faculdade, onde fiquei por mais de 30 anos e depois de tanto tempo, justo seria aposentar-me, não acha? Lembra-se mesmo de cada linha escrita?
- E quando fizemos amor? Aposto que fingiu.
- Não importa o que pensa disso. Mas, agradeço cada momento de sua vida que me entregou. Cada momento de amor, me eternizou. Não supõe o quanto me fez feliz em cada carinho. Obrigada, Fred. Quer saber minha idade?
- Não. Não me interessa saber. Quer saber a minha?
- Já sei. Você tem a idade dos meus sonhos. O tempo do meu ser. Isso me basta.
Fred estava atônito, mas, desta vez, não encolheu o cenho quando a mão de Felyna passou por seu rosto e pelos seus cabelos. Sentiu paz. Percebeu que a amava desde sempre. O beijo parece ter durado uns dois dias.
- Sabe, Fe... aquilo de benzedor foi mentira minha.
- Eu sei. Queria dizer outra coisa: Pode partir, se quiser.
- E, se quiser ficar?
- Eu seria muito feliz. Como sempre digo: Nada acontece ao acaso.
- Essa sua frase é linda.
- Claro que não é minha, bocó...
- Fe... Você mentiu pra mim...

texto: paulo moreira

domingo, 16 de novembro de 2008

poetisa

poetisas são assim....
uma faz rima pra mim

poetisas nos arrastam pelo coração
escrevem em nós
como fosse invisível mão

uma poetisa me leva
por caminhos que nunca percorri
me toma e não sossega
invade meus versos
invade minha rua
e meu mundo fica assim

múltiplas presenças numa só fada
minha poetisa.... minha mulher... minha amada

(paulo moreira)

sábado, 25 de outubro de 2008

Cativeiro

Um pequeno som acordou-a. Tinha certeza: havia alguém na sala. Ao tentar cuidadosamente acordar o companheiro, para não causar e nem demonstrar pânico, notou que ele não estava ao seu lado. Suspirou aliviada.
Lembrou-se - haviam feito amor há poucos instantes.
- Foi bom para você também?
- (cabeça cai, como quem concorda)
Cada um virou-se para seu lado e adormeceu. Fazia uns quarenta minutos, deu-se conta. Ele demorava e ela ouvia mais alguns barulhinhos. Vestiu uma roupa, preguiçosa, e foi para a sala ver o que acontecia. Seria alguma dor?
Na sala iluminada apenas pelo abajur, viu o marido já vestido, sentado à mesa de jantar, semi-curvado sobre um papel. Ao seu lado, a pequena mala. O barulho metálico que a acordara era o das chaves do carro que haviam caído.
- Onde você vai? Num baile? Morreu alguém?
- Sim, nosso amor dançou e eu morri. Adeus.
Margô esfregou os olhos e dirigiu-se ao banheiro para lavar o rosto. Só podia estar sonhando. Água no rosto, mesmo em sonho, ajudaria a acordar. Desta vez, não ajudou. O cenário parecia o mesmo. Olha no espelho, vê sua patética figura despenteada e murmura baixo:
- Margareth menina, vai precisar aumentar a fluoxetina. Agora deu para delirar! Vai deitar que amanhã tem aula de história da Profª Margô no Colégio Moreira Drummond!
Retornou para o quarto, deitou-se, beijou e abraçou o marido ao lado. Só então notou que o rosto do marido estava frio e que não costumava ter a lisura e a maciez da fronha de cetim.
- Benhêêêêê...
O Benhê estava na porta do quarto, com a luz por traz a lhe detalhar os contornos. Homem alto, bela postura, elegância e firmeza de gestos. Por anos e anos, ela lembraria daquela imagem, como uma cena surreal.
- Carlos... o que houve?
- Um dia, me dei todo a você. Entreguei meu corpo e minha alma – puros, sem limites. Meu coração te pertence, e sei que não o terei de volta jamais, pois que coração dado não se pode ter de volta. Uma vez entregue, infinitamente entregue.
- Diz isso e vai embora? Onde está o homem que minutos antes dizia ser meu escravo?
- Posso me fazer servo. Ninguém mais o pode.
- Enlouqueceu? Você é o meu amor.
- Sim, sou seu amor e aquele é o seu vaso - na sua sala. Quebre-o e, se puder, suas lembranças também. Fique bem,amor!
- Um pedido, Carlos, apenas isso. Dança aquela música comigo?
Rodaram pela sala fria por horas, beijando-se e abraçando-se com desespero - ao som daquela música caliente.
Saiu na névoa do dia por raiar sem olhar para traz, diante da incrédula Margareth, cuja cabeça girava e girava sem nada entender. Dez anos. Lembra-se do papel na mesa da sala de jantar, imagina uma carta de despedida, mas ao invés disso, descobre a prova de uma sua aluna, sob a luz do abajur:
"... mesmo livres, alguns permaneciam junto a seus senhores, fiéis e agradecidos pelo carinho recebido por aqueles que os tinham por seres humanos. Pela grandeza de seu amor e não por escritura de posse. Permaneciam em seus lares até o fim da vida, trabalhando com dedicação e desvelo. Uma escravidão voluntária e, por isso mesmo, doce escravidão - diziam. Sobre os títulos de propriedade, o tempo deu a resposta..."
Arrasta-se até o quarto e joga-se sobre a cama. Sob efeito dos calmantes, finalmente dorme. Depois de uns breves minutos de sono, acorda assustada outra vez. Feito um Zumbi.Tem novamente a estranha sensação de que barulhos de correntes a acordaram. Do apartamento, parece exalar um cheiro de cafezinho da fazenda.

texto: paulo moreira

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

amor criança

Dê-me suas mãos, vem! Brinca comigo nesse caminho maravilhoso das estrelas. Veja a estrada de terra à nossa frente levando até não sei onde. Calce o sapatinho para que nenhuma pedra possa ferir seus pés.
Agora solte esses cabelos e os deixe ao vento. Quero ver seus dentes num sorriso marfim de quem só tem que chegar ao castelo. Enquanto giramos e pulamos numa dança do nosso ritual, a lua mostra teu corpo translúcido dentro do vestido branco - em sua prata luz - e eu admiro a cena como quem vê uma obra de arte em mármore protegida por véus. Veja... somos estátuas que dançam; criaturas de pedra mágica, com coração e pulsar.
A lua ilumina também as flores do campo e reflete no lago enquanto os dois, meio a tudo, percorremos essa planície feito vagalumes. Flor por flor. Linda uma por uma. Os pássaros da noite piam, enquanto os outros dormem tranqüilos. Vejo olhinhos xeretas nos acompanhando o tempo todo.
Fico pensando nos bichinhos que já foram dormir. Preás abraçados meio a moita devem ser muito engraçadinhos. Uma preá de camisolinha deve ser o máximo.
A lua está em seus olhos e só sei sorrir. Senta um pouco aqui na beira do lago, ao meu lado. Na beira oposta, jacarés e suas namoradas – pelo brilho dos zóiões - devem estar fazendo planos de uma vida inteira. O lago parece um espelho que pisca, não é? Não está chovendo: são os peixinhos tomando fôlego. Veja o salto daquele. Uiaaaaaaaaaa. Só pra se mostrar!
Levante, vamos para a cachoeira. Beije meu rosto, pirilampa princesa!
Gosto de andar com as mãos dadas, pois é como se fôssemos caminhar juntos por mil anos e, essa sensação tão doce, gostaria de conservar pela eternidade. Caminhar de almas dadas é ir de encontro à mais pura luz do universo.
Sinto segurança ao seu lado. Com essa vara-espada encontrada no chão, lutarei feroz contra os todos os bichos da escuridão humana. Qualquer dragão - duvida? Adoro quando você bate palmas festejando minha vitória na mais terrível batalha já vista por um ser vivente. Só você presenciou, mas isto me basta. Nós sabemos o significado das nossas vitórias. Puxa, suei; me enxuga a testa.
Precisamos ir urgente para a cachoeira, pois marcamos uma visita àquelas águas que vivem em festa.
Acho que nos amamos, e você? Não responda, só balançe a cabeça se for verdade. Ahn, eu sabia!
Viu como é pertinho? A cachoeira lança faíscas de platina na queda e essa água aqui embaixo represada parece estar muito boa. Faça como eu, deixe as roupas na pedra e pule comigo. Assim.
A noite está quente e a água gelada. Abrace-me e fique comigo juntinho de mim, porque seu menino agora está com frio. Quando a gente gosta, um abraço desse vale a vida. Você fica muito engraçada, toda arrepiada. Já já, passa. Estava com sede e esta água misturada com sua saliva no beijo parece um elixir de felicidade.
Quando puder, vou construir uma casa bem debaixo da clareira. Nossa casinha terá uma lareira para quando o frio chegar. Será que a casa de madeira não tem perigo de pegar fogo também? Vou deixar bem isolada com barro, pois acho que barro não pega fogo.
Até te enxergo cuidando dos nossos dois filhos. Disse-me querer dois, um menino e uma menina. Já pensou se forem gêmeos? Acho que quando a gente pede as crianças, Deus manda. Mas só aqueles que pedem acreditando muito e bastantão, Ele envia do jeito certinho que encomendamos.
Se ficarmos deitados na pedra, daqui a pouquinho estaremos secos e podemos vestir as roupas para continuar. Embora, talvez agora, seja bom uma pausa.
Estou com soninho e acho melhor dormirmos aqui mesmo. Veja as estrelas lá em cima, formando figuras de não sei o quê. Um não sei o quê mais lindo que o outro. Não precisa rir de mim. Não sei o quê é uma coisa que não sei explicar, oras...
Adormece, princesinha, porque o caminho das estrelas só é possível percorrer seguindo os olhos do espírito. Entrelaça o seu coração comigo e não tenha medo. A viagem pelo céu é a viagem mais emocionante que duas crianças podem fazer. Temos mais de mil estrelas por visitar.
Dorme em paz, anjo de luz, para podermos partir agora. Estrelas não podem esperar.
Você dormiu. Mas se, de alguma forma puder me entender, quero que saiba o quanto me faz feliz. Obrigado por mais uma noite inesquecível de amor, que só junto de ti posso ter. Obrigado, mulher que se faz fada e menina - encanto mágico que cria o mundo de nossas fábulas, nosso reino e o melhor território que vivemos na Terra.
Por tentar ensinar-me a ser um sempre-príncipe.
Por fazer de mim, uma criança feliz.
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texto: paulo moreira

terça-feira, 14 de outubro de 2008

presença

Presença é o acordar pela manhã e buscar o abraço de uma lembrança no travesseiro. Um nome que insiste em ocupar nossos lençóis arrumados e já sem a noite dos que, loucamente, os desarrumaram tanto. Lençóis de manchas outras que, agora, não passam de pequenos círculos transparentes de lágrimas de uma estranha e até doce emoção.
Presença é o sentir a brisa da manhã trazendo o calafrio inexplicável daquele medo bom do primeiro encontro. Olhar a xícara e ver entre sombras intraduzíveis da superfície do leite, o rosto de alguém te insinuando as mesmas promessas bobas. A paz daquele sorriso, com cappuccino e açúcar. É nosso querer bem criando cenas de rara beleza. O fantasma que se senta, sem nenhuma cerimônia, à nossa mesa.
É a angústia de sentir que no vazio da ausência, ficou a marca. Isso é presença. Marca. A impossibilidade de parar com as mãos, essa sombra que o pensamento não consegue apagar.
Presença é um vírus contraído que nunca mais nos desacompanhará. São as nuvens brincando de criar a mesma silhueta no céu. Querer ver o filme outra vez e mais outra. Absurda luz na escuridão do quarto.
Ser obrigado a lembrar de tudo, pelo simples fato de ouvir um barulho na porta. A certeza de que, nesse mesmo instante alguém pensa em nós e lembra as mesmas coisas, ao mesmo tempo, com o coração também apertado pela saudade. E, caso tivesse coragem, contaría-nos esta mesma história.
A dor do saber que nunca mais - é presença.
Presença é querer dormir para ter a possibilidade de encontrar num sonho. Teimosia em inverter a realidade deserta. Ver o sofá da sala totalmente ocupado por ninguém.
Presença é ser capaz de nos preenchermos inteiros de quem já não está. É afrontar a dureza real de uma falta infinita que essa pessoa nos faz. É ler em pétalas de flores, os recados que só nós soubemos.
Alguém a quem tanto amamos é assim. Passe o tempo que passar, aconteça o que acontecer, estará longe ou perto, não importa.
Importa é que teremos, querendo ou não, sua incansável, suave e eterna presença.
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texto: paulo moreira

sábado, 11 de outubro de 2008

a crise americana e quem sai na chuva

Desde que o mundo é mundo, as crises se repetem. Parece-me claro que a idéia do lucro fácil e poder é sempre muito fascinante. Tão fascinante que, desde que o mundo é mundo, os motivos são os mesmos. Lembram do Império Romano? Só alegria. Nem o "modus operandi" muda. Quem pode, inventa.
Se a Noé & Sons tivesse se utilizado de algum banco divino para financiar a arca e, com a metade da grana produzisse barquinhos populares, hoje teríamos condomínios fechados de ninhos e locas em geral, habitados por chupins e boiando em glebas desabitadas do Bradesco ou do Citybank.
Fica a lição dos bichinhos da arca politicamente correta. Cada um na sua.
Noé não construiu alfândega e tampouco cobrou taxa marítima pelo passeio; mesmo assim morreu velhinho, sem plano de saúde e feliz por não ter explorado a macacada.
Ganhou umas centenas de anos pela empreitada. Ainda assim, o ser humano não aprende a lição.
Herdeiros nunca tocam o negócio tão bem quanto o pai. Por conta disso, a festa continua, sem nos darmos conta que:
Muito leite armazenado azeda. Pobres dos que só mamam.
Tubarões lipoaspirados não viram lambaris e, feliz ou infelizmente, enquanto houver mar, haverão Lulas para nos sustentar, caso falte leite azedo.
Burros com mania de grandeza, geram mulas. Mulas nada geram - só consomem.
Sorte do João-de-Barro. Corno, porém, sem nenhuma pensão por pagar. Voa livre hoje, para paraisos florestais, num jatinho Chung Ling 727 - totalflex - de fabricação asiática.
E para que ninguém diga que não falei dos insetos, o Bush não perde a mania de querer ser feliz com a gasolina alheia e grátis. Pior, ainda quer troco. Nem de perder a cabeça ao ver algum chinesinho vendendo pastel mais barato que o seu donnut. Vá fritar pastel no Monte Fuji; no mundo é que não. Senão, a gente espalha que o pastel foi frito com óleo de sucata de motor Lada, na cozinha do Sadan.
Bichinho veiaco por bichinho veiaco, prefiro um ratinho na despensa. A comunidade européia também.


texto: paulo moreira

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

o medo, a solidão e a linha amarela

Era um sábado à tarde e a gare do metrô estava praticamente vazia. Eu e minha amiga ficamos literalmente sozinhos numa das partes da plataforma. Quando o trem vem chegando, percebo que existe uma garota a menos de um metro de nós. Pela distância das catracas de acesso, aquilo parecia impossível. Em um segundo havia surgido do nada.
Incompreensível que, por não haver ninguém, tenha escolhido ficar quase grudada em nós.
Na chegada do vagão, encontrava-se bem à nossa frente, além da linha amarela de segurança; a composição passando a centímetros de seu rosto. Assustei-me. Sua mochila às costas me raspa o nariz.
A porta se abre e ela entra escolhendo um lugar antes de nós, mas ao nos perceber o rumo escolhido, muda a rota e senta-se num banco paralelo. Isto lhe dificultou a visão, pensei, pois novamente trocou de lugar e sentou-se num banco de frente onde, pela vista lateral, facilmente poderia controlar nossos movimentos.
Fiquei olhando aquela jovem figura que, desde então, não tirava os olhos de um único ponto do chão, enquanto eu não entendia nada do que fazia e buscava sentido em seu comportamento. Senti uma espécie de medo.
Conversávamos, eu e minha amiga, sobre Akenathon e Nefertite. Do Tutankhamon, tadinho, aleijado porque os casamentos entre parentes, na intenção de manter a pureza da dinastia, causavam esses transtornos. Da Cleópatra e o amante romano também. Viajávamos Nilo abaixo, fofocando a vida da elite egípcia.
Percebi que a movimentação estranha daquela garota colocou-me inquieto, numa situação observadora, defensiva e de alerta. Era como se houvesse pintado ao meu redor uma faixa amarela e ela houvera percebido. Começo então a pensar numa única coisa: o medo. Agira daquela forma por puro medo. De repente, compreendo tudo e me identifico com sua atitude.
A vida nos parece, por vezes uma plataforma vazia. Vazios imensos, com túneis escuros à frente, insistem em se apresentar à nossa vista. O medo da solidão das gares vazias de nós mesmos, que faz correr para junto de alguém eventualmente presente num local, mas que, paradoxalmente também assusta, pois não lhe conhecemos nada além do acaso da presença. É como se suplicássemos a proteção daquele que, por desconhecermos, também temos medo.
Queremos a sensação da segurança, na insegurança do desconhecido e por essa razão lhe vigiamos os passos, como se fosse possível conter-lhe a marcha. Ao menor movimento, novo medo.
Quantas vezes tivemos vontade de pedir uma mão para entrelaçar-se a nós, no intuito de suportarmos melhor nossa própria frieza interior?
A linha amarela no chão adverte contra o perigo. As linhas amarelas dos nossos atos impedem a proximidade que poderia dar conforto e são muito mais repressivas. Noto que essas faixas bloqueiam sorrisos, palavras ou o próprio calor da presença. Visualizo corações cercados por essa mesma faixa, nas frases que não foram ditas, na ajuda nem dada nem pedida, nos abraços e beijos que não existiram. Num amor que poderia haver brotado num jardim desprovido de faixas de contenção.
Vejo a distância do gesto infantil e natural de estar junto sem perguntar ou haver porquê. Sinto vergonha. Dos amigos que deixei de fazer, dos amores que não vivi, da quantidade de vida que possa ter perdido.
Por medo das plataformas perigosas e vazias, quanta vez cerquei-me de faixas amarelas de advertências inúteis? Quantas emoções perderam-se em meu caminho?
Sem levantar a cabeça, ela desceu numa estação. Saiu sem olhar para trás; sumiu meio a novo deserto, enquanto eu comentava com minha amiga:
- Estranha essa moça. Suas roupas também são estranhas.
Mas, ao reparar suas roupas, devia ter percebido que as faixas amareladas pelo tempo - nas quais nos enrolamos durante a vida - haviam me preparado uma irônica e incômoda sensação:
A de estar usando um traje ridículo e nada formal de múmia. A rigor.
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texto:paulo moreira

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

não se preocupe querida

Rodava pela cozinha feito louca. Karina, a filha de três anos, pedindo insistentemente o bolo há muito prometido. Gritava com a menina, que parecia ter uma energia incessante para irritá-la. Há muito tempo esperava alguns minutos de paz, que a filha não parecia disposta a conceder-lhe tão cedo. Meses? Anos?
Afinal, quantas coisas lhe haviam sido prometidas na vida sem que cumprissem? Por que tinha obrigação de fazer aquele bolo para a filha? Por qual razão sempre levava nas costas os pecados do mundo?
Mas, iria fazê-lo sim. Ao menos, Karina lhe daria sossego um pouco.
Olhou desencantada para a cozinha toda cheia de louças por lavar do dia anterior, virada de pernas pro ar. Sua vida com o marido, pensou, era como aquela louça suja.
- Meu Deus, quantas coisas por limpar na vida! Cada dia mais e mais. Como lavar, secar e colocar em ordem a existência? Por enquanto, melhor tentar começar pela louça.
Depressa, Karina a lembra por onde começar.
- Droga, o bolo!
Mistura os ingredientes - farinha, ovos, decepções, pouco açúcar, gotas de tristeza com aroma de baunilha, leite e lágrimas. Por fim, o fermento em pó. Vira-se para a pia, a fim de lavar a grande colher com que mexia tudo e percebe a menina esticando-se toda da cadeira por sobre a mesa para enfiar um dedo na massa.
Num gesto quase que natural aos já distantes de qualquer raciocínio, bate com a colher na mão da filhinha. Com força. Sabe-se lá por qual razão ou desencontro do destino, força suficiente para a mão da menina chorosa inchar muito e, nos dias seguintes, tornar-se mais escura. A pomada não resolvia.
Num certo momento, a porta do médico se abre e, sem que possa atinar com nada, ouve o inacreditável:
- Não há saída, deu gangrena. É preciso amputar.
Quase um ano depois, encontra-se sentada numa cadeira da cozinha fazendo, calada como passara a ser, mais um dos intermináveis bolos que, quase que diariamente, desde o acontecido, fazia para a filha. Karina aproxima-se e vê o semblante triste da mãe, que levanta os olhos cheios de lágrimas, põe a vasilha sobre a mesa e lhe dá um abraço que só um desespero sem fim é capaz de dar.
Com a mão esquerda, a garotinha levanta o avental da mãe, enxuga-lhe a face, e diz carinhosa:
- Não se preocupe querida, não vou mexer mais no bolo.
Levanta o bracinho com um sorriso de pureza:
- Veja mamãe, eu não tenho mais mãozinha para mexer no bolo.

A história verídica de Karina me foi contada, um dia, por minha mãe, que tentava através de histórias e exemplos, preparar-me para a vida e tornar-me um ser um pouco melhor. Como tantas outras histórias, sempre a carreguei comigo e, cada vez que penso em Karina e sua mãe, as emoções deságuam.
Muitas coisas nos despertam os sentimentos, seguindo-nos por toda a existência mas, uma coisa, outro dia me perturbou muito.
Diante de alguém, senti uma vontade imensa de fazer um afago, um carinho. No entanto, sem saber no momento o porquê, me detive; lembrei-me de tantas coisas vividas por nós juntos e fui rumo à outra direção. Procurava ver meu coração, mas algo nele não mais havia. Meus lábios, tremendo, apenas souberam murmurar:
- Não se preocupe querida, não vou mais mexer...

texto: paulo moreira

domingo, 14 de setembro de 2008

o tamanho do amor

O amor cabe num aquário, num cubo
mas será sempre maior que os oceanos
Sem tempo preciso, só precisa um segundo
Ampulheta eterna, agenda de mil planos
***
Cabe num aro anel, em alianças de sonho
Em corações traçados, num sorriso inesperado
Num tolo bordado em toalhas de banho
Num frasco da memória, perfume guardado
***
Encaixa-se numa pequena pétala de flor
Se faz pleno numa única palavra sugerida
Por não saber seu tamanho, o amor
Vai além do tempo e da própria vida
***
Controverso sentido, pequenino e imenso
Amedronta e, ainda assim, nos faz seguros
Senhor do mundo, afronta e cabe num verso
Cativo de si e detento, roga lindos agouros
***
Não há quem possa, portanto, lhe definir o tamanho
Ninguém lhe sabe o alcance, tampouco a sua verdade
Em todas as meninas dos olhos - está esse estranho
Brincando de ser universo - e sabendo-se eternidade
...
paulo moreira

terça-feira, 9 de setembro de 2008

escrevendo emoções

Mãos de luz abençoam minhas madrugadas
E transformam angústias e dores em palavras
As tristezas se tornam esperança
A este homem, fazem criança
Os sentimentos viram brinquedos
Do mundo, descubro os segredos
...
Escorrem emoções como bolas de gude
A realidade perde o sentido de dor
Deslumbrado nem sei como pude
Transformar tanta coisa em amor
...
E essas mãos fazem - de tudo - uma nova construção
No papel, meio às gotas de sensações misturadas
Entre mágicas de vida e emoções soterradas
Nas lágrimas, antes contidas, reencontro o meu coração
...
paulo moreira

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

todo o carinho do mundo

Carinho é um inexplicável sentir que toma conta da gente e faz com que nossas almas se abracem.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

convite


...são apenas palavras,
e palavras são apenas o que tenho
para levar seu coração embora...
Bee Gees

Perfume de Coração é um livro que conta histórias de vida, através de crônicas, contos e poesias.
É a expressão de um homem que prefere ter um coração-menino ao olhar o mundo.
Uma tentativa de compartilhar - através de palavras - os sentimentos e as emoções.
Ver e enxergar as pessoas com olhos de beleza.
Poder sentir essa maravilhosa fragrância que exala, sutil, das pessoas que me cercam. Cada qual, com sua essência única e generosa.
Gostaria, portanto, de ter você ao meu lado num momento tão bom.
E sentir num abraço, esse doce aroma que é o Perfume de SEU Coração.


Não é necessário apresentação do convite. Basta você apresentar sua senha:
- Seu melhor sorriso

Coquetel de Lançamento do Livro
Dia 30/08/2008 (sábado)
Das 16 às 19 horas
Editora All Print
Espaço Cultural Antonio Adolpho
Rua Ibituruna, 550 - Saúde
Saõ Paulo - SP

texto: paulo moreira

sábado, 16 de agosto de 2008

estranho ofício

Estranho ofício esse. Às vezes, acordando em sobressalto no meio da noite, para atender a urgência de uma idéia, feito um policial percorrendo as ruas do labirinto de nós mesmos. Personagens que surgem e dos quais temos a obrigação de lhes contar as dores, os sofrimentos, o amar, o tudo sentir. Escrivão do tribunal da própria consciência, relatando acontecimentos que marcam o espírito. É assim.
Como uma criança que vive seus sonhos, sou pintor. E meus pincéis são palavras, capazes de colorir sonhos, de produzir telas de natureza viva ou morta. Pintor de casas de toda cor, inclusive das que já a perderam. De árvores secas ou floridas, depende. Um pedreiro que assenta as palavras dos muros de arrimo da esperança. Açougueiro que apunhala o coração sem piedade. Soldado sem quartel.
É esse o ofício. E mais.
Médico amigo que socorre corações e lhes cura as feridas. Cirurgião plástico que modela a amada à feição de fada ou, talvez, um psicólogo navegador que - paciente - ouve, propõe buscas, orienta rumos e viaja Brasis e outros mundos. É o curador ou charlatão de almas tantas, mesmo a sua. Um professor que presume tudo poder ensinar.
Escrever é assim.
Sou engenheiro de palavras, viabilizando o impossível num tear de tramas do fundo de alguém. O iluminador de caminhos, talvez. O palhaço arrancando sorrisos e ternura de uma criança de qualquer idade. Anjo veterinário dos animaizinhos - enxerga cada um como um filho.
Minha profissão são todas e, em cada uma, tento ser o melhor possível. Alimento-me de emoções e as dos outros, pretensiosamente, quero alimentar também.
Sou o músico da poesia ritmada ou sem rima ou rumo. Cineasta e diretor do filme que escolhe o final feliz ou não, conforme meu estado. Filmo cenas de amor, de aventura, dos horrores do mundo. Tudo num papel. Walt Disney de algum desenho animadíssimo. Kubrick de coisas ininteligíveis, mas instigantes.
Emociono-me igualmente com sorrisos ou lamentos. Ambos mexem comigo de uma maneira fortíssima. Despertar a emoção das pessoas é a realização do meu trabalho. A minha maior paga.
Escrevo e faço do meu escrever um testemunho do mundo, de defesa do que me parece justo. Advogado dativo, preposto da natureza, dos amantes, dos sonhos, do Céu e da Terra. Se alguém os agride - enquanto juiz - condeno ao exílio ou à morte perpétua. Passo o concreto e o virtual para um único plano; o dos sentimentos traduzidos em palavras. Arrancar lágrimas, leva-me a um estranho tipo de êxtase.
Ao menos, tento.
Sou nada real. Mas, ainda que absurdo, faço as pessoas pensarem. Um chanceler de todas as profissões e afazeres do mundo. Do amor também.
Na verdade, sou apenas um escritor.

***
texto: paulo moreira

terça-feira, 5 de agosto de 2008

lentes na escuridão

Acordou e não conseguiu tão rápido cair em si. O sonho houvera sido muito marcante e ainda levava consigo as sensações dele. Sonho de beijos molhados e rostos desconhecidos; na seqüência, ruas vazias e a névoa de uma noite de abandono.
Apalpou ao lado procurando os óculos, enquanto os pés procuravam os chinelos. Encontrou-os pela automação diária dos hábitos. Levantou-se e tateou até o interruptor. A luz repentina invadiu os olhos que arderam. Resolveu não acender mais nenhuma e ficou arrastando-se pela casa. Com a mente não atinando em nada, tropeçou no tapete. Tropeços são parte da vida.
Na escuridão da sala tentava pensar em algo, mas estranhamente nada surgia para poder pensar. Ainda estava sob a emoção do sonho, do qual só trazia resquícios de sensações procurando a lógica da letargia. Nada. No sofá, apenas vultos dos móveis e um silêncio desafiador. Madrugada.
Sem fome, passou pela cozinha indiferente e andou feito um zumbi pela casa. Foi e voltou várias vezes. A mente ainda vazia. Só restava voltar para o quarto e continuar o sono.
Entrou, apagou a luz e deitou-se na cama. Não havia tirado os óculos e só ao virar-se para o lado sorriu do detalhe bobo. Sentiu-se idiota ao tirá-lo e recolocá-lo umas três vezes para comprovar o óbvio. No escuro total do quarto não fazia a menor diferença tê-lo ou não.
As lentes não eram menos lentes nem seus olhos menos míopes. Assim como o armário, o quadro e a janela eram os mesmos. Pensou na tolice que lhe guiava os sentidos e sentiu-se como um nenê pensando diante do chocalho no berço. Na escuridão total, nada faz diferença.
Passou pela cabeça o nome daquela pessoa e, susto maior, nenhuma imagem surgiu. Imaginava sempre as noites que passaram juntos e das quais trazia as lembranças que, hoje em especial, teimavam em não surgir.
Deu-se conta dos tempos que ali passara e sempre que fechava os olhos vislumbrava as cenas do que fora amor. Noites agitadas em que acordava com o corpo chamando por esse alguém; em que as próprias mãos passeavam pelo corpo inquieto, como fossem capazes de trazer a presença de um dia. Dos beijos dados no próprio braço, tentando reproduzir o calor daquele corpo, ficava a desilusão da ausência.
Tinha amado como ninguém jamais ousara. Houvera abandonado tudo em razão da luz daquele amor. Abandonara, talvez, a própria vida em direção a ela. Dos momentos sentia a falta; desde cada beijo ou carinho trocado, até o fundo da alma cicatrizada pela distância muita e o desprezo mudo.
Até então, bastava fechar os olhos e pensar naquele amor, para que no escuro e na solidão de seu quarto surgissem aquelas paisagens iluminadas de lindas cenas indecentes. Vinham os planos a dois, as conversas trocadas, as esperanças. A vida tornava-se luz.
Mas, naquela noite não era mais assim.
Sabia que, a partir dela tudo estaria ali, a exemplo de seus armários, janelas e objetos. Embora ali estivessem - seus olhos, suas lentes e o resto do quarto não seriam suficientes para resistir à ausência de uma nesga de luz que fosse. Era impossível enxergar alguma coisa.
Lembrou-se de ter dito um dia que a ausência do ser amado fazia sua vida tornar-se noite. Tinha razão.
Só então caiu em si.
Na mesa de cabeceira faltava alguma coisa. Talvez um porta-retratos. Mesmo que apalpasse, acendesse a luz ou colocasse os óculos não o veria mais, mesmo que estivesse em outro lugar da casa.
Seu coração foi retirando pouco a pouco, entre tantos desacertos e desencontros, esse alguém de dentro de si.
Não era necessário mais pensar. Era suficiente saber que, mesmo que poderosas lentes fossem colocadas em seu coração, este não enxergaria mais o amor que havia ficado em algum lugar do caminho, onde as estrelas cintilavam ou onde o sol nascia senhor da Terra. Sem luz alguma.
Virou-se para o lado e dormiu diferente dos dias em que dormia para poder sonhar. Dormiu sem porquê; nem feliz, nem infeliz. Dormiu para permitir que o dia amanhecesse.
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texto: paulo moreira
imagem: pedro moreira

sábado, 26 de julho de 2008

bruna e o pingolongo

Veio quase que se arrastando do quintal e parou ao me ver deitado no sofá. Estava arrasada. Seu rosto denotava a indignação dos agredidos, a tristeza dos injustiçados e a mágoa dos abandonados. Ficou um momento ali parada. Os olhinhos não aguentaram e as lágrimas brotaram grossas.
Não foi preciso perguntar, pois apenas com o meu olhar ela foi se aproximando e, diante de mim, contou toda aquela lamentável catástrofe; a tragédia da qual fora vítima:
- Vô, o bicho me mordeu.
Um vermelhão enorme na coxa mostrava que não mentia, embora não fosse algo que justificasse tanta dramaticidade. Mas, afinal, um colo na hora certa é sempre um colo.
- Me abraça, Bruna. E me conta quem foi o malvado, cruel, idiota e delinquente inseto canalha que fez isso.
Meio desconfiada com as palavras exageradas e do meu sorriso zombeteiro - murmurou baixinho:
- Foi um pingolongo...
Desatei numa risada só, enquanto ela me olhava com os olhos meio estufadinhos e molhados. Não demorou para que me sentisse um idiota, diante da seriedade dela.
- Desculpe, querida. Não estou rindo da sua dor, não. Estou rindo do seu jeito de falar. Qual foi o bicho que te mordeu, mesmo?
Silêncio. Um silêncio que denunciava minha insensibilidade.
- Vem aqui, deixa o vô beijar sua perna. Beijo de avô não falha, você vai ver.
Pelo vermelho da coxa, resolvi fazer uma interação medicamentosa do beijo com uma pomadinha. E aproveitar a oportunidade para ensinar a palavra certa.
- Não é pingolongo, anjo. Preste atenção e repita bem devagarinho - PER-NI-LON-GO. Entendeu? PER-NI-LON-GO. Eu sei que você consegue.
Gostosa sensação de professor. Ah, se aquele coraçãozinho pudesse ouvir-me a alma. Ela, por sua vez, tentando:
- Pin per... golongo. Pino-lon-go.
- Fala direito, Bru. Depois vou pedir para sua mãe perguntar.
Optou, por fim, pelo novo silêncio. Ganhou outro beijo no rosto e saiu para brincar novamente.
Depois de um tempo voltou feliz e sentou-se em meu colo. Passei a mão na manchinha quase sumida. Era a chance imperdível do esperto homem caderno, o avô lição inesquecível, o livro da vida com pernas:
- Bruna, qual é mesmo o nome do bicho que te mordeu?
Ela abriu um largo sorriso e respondeu vitoriosa:
- Sabe, acho que foi uma aranha, vô...

texto: paulo moreira

quinta-feira, 24 de julho de 2008

marcelino pão e vinho

“Marcelino é um órfão encontrado na porta de um mosteiro e criado por 12 frades. Certo dia, ele oferece, durante sua refeição, um pedaço de pão e um pouco de vinho a uma imagem de madeira de Jesus, que aceita a oferta e passa a conversar com o menino. É o início de uma grande amizade. Aplaudido no Festival de Cannes, onde recebeu uma Menção Honrosa, e vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, Marcelino Pão & Vinho é um clássico do cinema espanhol.”
***

Uma pequena frase foi o estopim de tudo. Foi o desabafo de uma namorada:
- Você não precisa de uma namorada; você precisa de uma mãe!
Aquilo ficou martelando em minha cabeça dias e dias. Ia para meu quarto e ficava pensando no que ela havia dito. Tinha razão por tudo. Pela minha dependência, pelos caprichos, por nada saber da vida ou de qualquer dificuldade. Aquela frase atingiu-me em cheio, bem no meio do alvo. E tomou conta daqueles dias dos meus vinte e poucos anos.
De tanto olhar a mim mesmo e tentar enxergar a realidade, comecei a perceber que buscava nas memórias e nas sensações a razão daquilo tudo. Até que consegui enxergar. Era transparente como a água. Como não havia visto antes?
A primeira coisa foi ver-me tomando banho. Meu Deus, como eu era ridículo tomando banho. Pela manhã, eram banhos de mais de uma hora antes de ir para o trabalho. O ridículo era a forma como o fazia. Tomava banho de chuveirinho, agachado e curvo, com os braços encolhidos para dentro e com a água quente escorrendo pela boca e pelo corpo. O escuro dos olhos fechados, momento de maior paz e tranqüilidade.
Minha mãe, por vezes, batendo na porta seguidamente para que não perdesse a hora, sem que sequer ouvisse nada. Pura felicidade, puro êxtase.
Para, em seguida, ir para o trabalho com uma agitação sem igual, irritadiço e incomodado com o barulho dos automóveis e com a agitação. Era como se fosse durante todo o trajeto sendo chacoalhado, dirigindo nervoso e inquieto. Frio. Muito frio.
A primeira percepção foi a de posição fetal e logo em seguida a das sensações que, então, tomaram o vulto de lembranças. O grande problema de enxergarmos isso, talvez seja porque no útero materno não haja acontecimentos novos ou diferentes a cada momento. Lembrava-me, lógico, apenas do que os sentidos podiam perceber. A temperatura da água, tal qual o líquido que me envolvia, a escuridão e o som apenas das entranhas de minha mãe. Calor, segurança, proteção.
Difícil assimilar a situação. Mães foram feitas para os filhos saírem e não mais retornarem, afinal de contas.
Nos dias subseqüentes, as lembranças mais e mais claras e as perguntas à minha mãe para tentar confirmá-las. Como as confirmações vinham positivas, as perguntas aumentavam.
- Mãe, por que me chacoalharam tanto, logo que nasci? Por que não abria a mão esquerda?
- Filho, como lembra disso? Depois de duas meninas, você foi o primeiro filho homem e seu pai explodiu de felicidade. Te pegou ainda pelado, enrolou num cobertor e foi te pesar no bar. Você nasceu no final de março – outono – e, três meses depois, no inverno, não conseguia te vestir as luvinhas porque você não abria a mãozinha esquerda de jeito nenhum. Mas, como lembra essas coisas?
Só que eu lembrava muito mais. Lembrava-me tudo - dentro e fora dela. Entendia agora a minha agitação ao sair do útero do meu banho. Meu pai atravessando, comigo enrolado num cobertor, a Rua do Orfanato - onde tinha o bar quase em frente a nossa casa - agitadíssima e cheia de automóveis, barulhos… Todas as cenas de minha vida tornaram-se muito claras.
Com dois anos, brincando no chão do bar, enquanto alguns fregueses me chamavam de Marcelino Pão e Vinho. O apelido era porque, em 1958, o ano em que nasci, o garoto que havia protagonizado o filme estivera no Brasil. Em 1961 o filme era sucesso que passava no cinema ao lado, o Cine Fátima. Todos me achavam muito parecido com o tal Marcelino, um tipo de menino de Deus. Depois, descobri que o tal menino ator (de Pablo para Paulo é um pulinho) havia nascido também num mês de março.
O ator Pablo Calvo Hidalgo nasceu em Madri, em março de 1948 e faleceu em fevereiro de 2000, aos 51 anos de idade, em conseqüência de um derrame cerebral.
Chamavam-me Marcelino Bom Menino, bem diferente daquele, mas também menino. O apelido durou até uns cinco anos. A propósito, ainda não faleci.
Em minha vida, o retorno a situações vivenciadas foi sempre uma constante. Com três para quatro anos já começava a ler e aos quatro escrevia também. Tudo como se, ler e escrever, fosse uma lembrança. Sempre foi assim comigo. Tudo como um filme já visto.
Só de uma coisa não conseguia lembrar. Do momento exato em que havia nascido. Até que num desses esforços de concentração, numa noite estranha, minha mãe entra no quarto e me pega gemendo e sufocado como se alguma coisa me apertasse o corpo todo, o pescoço e, tirasse o fôlego. Os olhos ardendo com a chegada da luz e o alívio do momento passado.
Pronto. Havia lembrado.
Todo esse processo ajudou-me muito na compreensão de mim mesmo. Na visão do mundo e do amor. Os movimentos podendo gerar vida, alegria, trabalho. Dos abraços entre amigos. Do calor vindo dos corpos juntos, nas entranhas de uma mulher e de mim mesmo. Do sentir os seios de uma companheira alimentando meu coração, num ritual misto de sensualidade e apego espiritual. Da necessidade quase compulsiva de querer tocar as pessoas. Do frio nos momentos de solidão; um frio físico, mas também do fundo do espírito. Dessa experiência de perceber a conexão entre meu ser e o universo num sentido mais amplo.
Lembranças de outras vidas vieram depois.
Uma das coisas mais marcantes foi mesmo essa do apelido Marcelino Bom Menino. Por vezes, sinto essa coisa boba. Algo como crer que, tal aquele menino com quem Deus conversava, pudesse ter mãos que curassem, trazendo alívio e afagos. Que, coincidentemente, pudesse ter a mesma sorte. Se não minhas mãos, ao menos, minhas palavras.


texto: paulo moreira

segunda-feira, 21 de julho de 2008

resposta a e-mail sobre cérebro masculino e feminino

O resumo da mensagem recebida é algo assim:
- Deus deu opções. O homem escolheu fazer xixi em pé, enquanto a mulher preferiu ter cérebro...

Certamente, um homem com um mínimo de educação, não envia a uma mulher uma mensagem que a deprecie. Talvez não seja uma atitude considerada inteligente, mas sem dúvidas, é mais humana. O homem de bem, ao contrário, sempre envia uma mensagem que valorize a mulher. Aliás, como toda mulher bem merece.
Sinto, que em tempos atuais, algumas mulheres, até pelo fato de serem tão cultuadas por nós, homens de verdade (em caráter e educação), reajam de maneira tão imprevisível. Chega a ficar claro que, este planeta, ao ver de algumas "mulheres", deveria ser uma exclusividade do sexo feminino. Lamentável atitude. Lamentável brincadeira que a cada dia ganha vulto.
O que deve e vem tendo vulto, ainda bem, é a verdadeira valorização da mulher. Merecida e justa.
Uma mulher, para ser grande, não precisa diminuir seu parceiro de luta e de natureza. As grandes mulheres, antes de tudo, são grandes parceiras e grandes mães dos filhos que geram junto de um escolhido "homem", através de algo chamado "amor"; também uma escolha. Além, é claro de suas virtudes pessoais, tais quais: inteligência, talento e perseverança, bem como, a beleza que caracteriza todas.
De pé, não faço apenas xixi. De pé, me posiciono perante o mundo. De pé, aplaudo toda mulher valorosa. E de joelhos agradeço todos os dias a presença da mais linda criação que Deus fez e de quem me gerou - A mulher.
Penso que Deus acabou dando cérebro a todos. Para usar.
Carinho
Repassando a todos a versão original. Omitindo o recebimento, por questão de respeito. Honestamente e sem trocadilho:
- Esse tipo de coisa, já encheu o saco!
.
texto: paulo moreira

sábado, 19 de julho de 2008

partidas

Não esqueça nunca que os jardins apenas se renovam e que as flores precisam iluminar novos jardins. Talvez por isso, parece-nos que houveram seguidas perdas.
Na verdade, se em nosso coração fez-se inverno aqui - em algum lugar está chegando a primavera. Em tempos de frio é necessário que os corações se abracem para suportá-lo e para que se tenha a alegria de saber que a primavera vai e vem numa sequência sem fim. Assim será para que, em todos os lugares do universo, possam haver flores. Ciclos que podem nos fugir ao entendimento, por ora.
Um dia, certamente, compreenderemos a necessidade de todas as estações para que se faça a eternidade dos planos.
texto: paulo moreira

terça-feira, 15 de julho de 2008

quarta-feira, 9 de julho de 2008

generosidade

No decorrer de nossa vida convivemos com as pessoas e cada uma delas nos traz alguma coisa, algum sentimento.
Existem aquelas que o tempo todo nos dão carinho, amizade e o melhor de si. Por vezes, somos até injustos, pois apesar de lhes querermos bem, passamos a considerar isso uma rotina, algo normal e nem percebemos o real valor de toda essa dedicação. De uma forma ou outra, no entanto, somos sempre gratos pelo seu constante desvelo e carinho.
Existem também aquelas que, por uma razão ou outra, nem sempre nos fazem tanto bem assim e algumas que chegam até a querer nos prejudicar por um motivo qualquer. Quando isso acontece, é como se olhássemos no espelho e víssemos sombras por toda a parte. Machuca-nos a alma e surge a mágoa.
Mas, dentro de todas essas situações, devemos considerar uma coisa:
Essas pessoas que, de maneira deliberada ou não, fazem-nos algo que não consideramos bom, no entanto, nos ensinam muito. São essas situações que nos ensinam a tolerância, a compreensão, a malícia e ensinam também o valor daqueles que nos querem e fazem bem. Das situações difíceis, sempre saímos com uma experiência e uma visão melhor das coisas.
Por essa razão, temos que obrigatoriamente concluir que também são professores em nossas vidas. Temos que admitir que o ser humano, ainda que não queira, mesmo de maneira involuntária, acaba sempre contribuindo para nossa evolução e progresso.
Ou seja, o ser humano é em qualquer circunstância, no mínimo, generoso. E por isso deve ser amado.
Quando percebemos essa verdade, é exatamente o momento de enxergar à nossa volta e saber que entre todos, sem exceção, sempre haverá a oportunidade da luz.
texto: paulo moreira

sábado, 28 de junho de 2008

honestidade

Primeiro vem a atração mútua. Vêm, também, as palavras que escorrem tão naturais quanto sentir fome ou piscar os olhos. Nessa mistura mágica, vêm juntas todas essas coisas inexplicáveis que só o amor entende. Palavras e atitudes brotam belas e criam, aos pouquinhos, a proximidade de pensamentos e de ideais. Esse é o início do encaixe das pecinhas. Assim nasce o amor.
Descobrimos maravilhados no outro a coerência total no falar, agir e pensar. Mesmo nas confissões mais difíceis, a sinceridade prevalece e é como um concreto firme que alicerça e dá segurança ao amor. É aquela certeza que não se explica, a cumplicidade que nasce do saber que no outro coração existe, antes de tudo, honestidade. Sinceridade.
Aliás, muitos consideram honestidade uma qualidade. Longe de ser qualidade, nada mais é que uma obrigação. Aos sermos honestos não estamos fazendo nada além do que se espera de nós. É o mínimo que se pode querer de um ser humano. Ao encontrar uma carteira e devolvê-la, ninguém torna-se anjo. Apenas sabe que enxerga bem o suficiente para vê-la e devolvê-la. Enxerga bem de toda forma, se assim o faz.
A confiança plena em outra pessoa é fundamental para ser feliz. Sabemos que em nada acreditaremos sobre algo que se refira a ela, sem seu pleno assentimento e aval. E essa transparência no agir ensina a importância da compreensão, da tolerância, do entendimento e, se for o caso, do perdão. Não há perdão sem esquecimento honesto; não necessariamente do fato, mas do sentimento.
No amor, honestidade é se desnudar perante o outro sem medo. É tirar a roupa do corpo e da alma, sem sentir vergonha por haver se entregado por completo. São os gemidos loucos e o rosto contorcido, deformado pelo momento do êxtase verdadeiro, para a volta quase imediata do sorriso de quem sabe que valeu a pena. O imediato apego à paz dos amantes. Contar os segredos dos pensamentos mais íntimos. É o procurar palavra que se encaixe naquele sentimento impossível de ser desenhado. Dizer dos sonhos que vão se realizar porque lutaremos por eles e dos que não irão se realizar, pois que, precisam continuar sonhos e assim deve ser. É o pular no abismo desconhecido, pela simples confiança no outro que chamou:
- Vem. Pode vir!
Podemos confiar demais e ter dúvidas. Não é a dúvida da sinceridade do outro. Pode ser sobre coisas externas ou até uma dúvida sobre nosso eu. Nosso sentir. E isso é uma coisa muito delicada, pois não coloca em xeque a honestidade dos dois, mas pode acabar com uma relação. Pode ser um golpe sem volta.
Se a pessoa que você ama usa toda a sinceridade que possui e, num certo momento, expõe uma dúvida sobre um amor do passado, isso machuca. Por mais honesto e humano que seja, crava feito punhal. E coração em dúvida agride sem perceber. Critica cada ação sua por, inconscientemente, comparar.
Isso fere como lâmina afiada porque não há defesa. Não existe como fugir. Não há como acusar de insinceridade. É um fato diante de nós e fatos são fortes demais.
Paradoxalmente e para nosso desespero, sabemos que na dúvida posta, existe acima de tudo, a honestidade do outro, e essa clareza volta-se cruel contra todo o amor que sentimos. É semelhante ao contar para o vizinho que ele possui apenas uma semana de vida, pois, por acaso você leu isso num relatório do médico. Uma sinceridade doída e fatal. Mas não deixa, afinal, de ser uma verdade.
É quando a honestidade te corrói. Te mata aos poucos. Porque você sabe que, uma vez que a pessoa amada não mente, está te expondo a receber um carinho que não necessariamente te pertença por inteiro. Te deixa sem saber se o corpo que você recebe é o mesmo do pensamento a quem se dirige. É te deixar sem a certeza de que arrumou o quarto para os dois. É a dor de saber que amar não foi o bastante. Ou, ao menos, o suficiente para que dúvidas jamais surgissem.
A verdade do outro é cruel em todos os sentidos, porque além de tudo, deixa a culpa de seus próprios erros. Da pessoa, não houve ânimo de ferir. Apenas honestidade.
Só te resta então, entender e admirar a atitude desse amor que te foi tão precioso. E ser sincero principalmente consigo mesmo. Nada a fazer. Talvez, dopar os sentidos do coração para que, como um animal condenado, sinta dor menor ao morrer.
Carregar consigo o consolo de ter sido tão maravilhoso, por ter sido tão verdadeiro. Honesto.
Saber que, por conhecer a si mesmo e seus limites de aceitação, honestamente, o melhor é partir.
.
texto: paulo moreira
imagem: tela à óleo - "casal" - maria de lourdes moreira

sexta-feira, 27 de junho de 2008

simplesmente feliz

No meio da noite uma vontade imensa de dar risadas. Passaria despercebido, não fosse uma sensação tão intensa. De repente, tudo ficou bonito e comecei a sorrir para mim mesmo, para tudo à minha volta. Até o vôo de um inseto virou balet. O coração se encheu de amor e ficou pulsando como aqueles celulares com tremedeira.
Num instante, uma vontade imensa de aumentar o volume daquela música alegre e ficar gesticulando sozinho, orgulhoso com o próprio movimento das mãos sedentas de movimento e ritmo. Não entendendo nada, começo a brincar com o próprio pensamento.
Fosse contar para alguém, diria que fiquei procurando uma fumaça misteriosa que teria entrado pelos vãos da janela. Talvez alegar que os anjos resolveram fazer baile na minha casa, chamando-me para dançar o funk das asinhas.
Drogas, não uso. Só posso contar com o meu pensar. Que seria isso?
Uma felicidade sem tamanho toma conta de tudo. Do corpo, do pensamento, do coração, do mundo. Coisa de nenê que dá aquela gargalhada gostosa diante de um simples aceno. Sentimento de ter ganhado o primeiro beijo; de primeiro amor. Alegria na alma com vontade de dançar e pular.
Vontade cantar parabéns a você, do jeito mais ridículo possível. Liberdade na alma, lembrando todas as pessoas queridas sorrindo. Não apenas essas, mas todos os seres do mundo. Como se alegria, nessa noite fria, fosse vírus de influenza modificado. Muito esquisito.
Desejo de dar as mãos para alguém e sair correndo junto, sorrindo. Penso que posso estar morrendo e fiquei feliz porque não vou mais precisar de automóvel; que daqui para frente irei onde meu pensamento mandar num piscar de olhos. Bobagem, não estou morrendo não. Só se estiver morrendo de amor, mas fosse isso, estaria com o pensamentos fixo em alguém e isso não é o que acontece. Não penso num alguém em especial. Alegria mais esquisistranha. De onde vem isso? O ar ficou contaminado com alguma substância?
Consigo imaginar um mundo de crianças felizes, de pessoas plenas, de amizades pulando como pipocas na panela, de gente se amando. Nem vi o céu, mas deve estar lindo como nunca.
Desejo de amor, de paz, de proximidade. Vontade registrar esse momento em cartório.
Pensando em médicos e enfermeiras - desocupados pelos corredores de hospitais vazios -contando piadinhas de humor claro, enquanto os funcionários da portaria, sonados, ficam com a cabeça pescando, à espera dos que não virão mais, nunca mais. Delegacias vazias. Advogados brigando por um lugar em alguma gangorra ou gira-gira, dentistas sem perfumes de resina de dentadura e professores humildes.
Uma mesa comprida com centenas de pessoas comendo sardinha, pão e vinho ao meu lado, com aquela vontade. Tipo santa ceia sem crachá.
Estado de êxtase. Sorriso com jeito de coceira, com jeito de amar um mundo recém-nascido.
Prefiro imaginar que a causa seja mesmo a chegada dos anjos. Só pode ser. E ficar pensando que a vida é um presente. Esta, a próxima e mais outra.
Bom parar de pensar. Esse estado de euforia pode ser muito fugaz, talvez. Decidi - não vou pensar mesmo. Mas, vou confessar uma coisa:
- Não estou com vontade parar tão cedo. É tão bom ser bobo e estar simplesmente feliz!
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texto: paulo moreira

domingo, 22 de junho de 2008

aqueles bailes


Naquele tempo a gente parecia que tinha um ritual de fim de semana. Era, no sábado, o baile do Monza e no domingo o baile do Juventus. E todos, garotos e garotas, iam com suas turminhas.
Havia uma rivalidade acirrada entre o pessoal do nosso bairro, a turma do 7, que era quem morava perto do Clube 7 de Setembro da Água Rasa e o pessoal do Vila Invernada, o bairro um pouco mais acima. Desta forma, acontecia que, no sábado, os garotos do Vila davam em cima das meninas do 7 e vice-versa. Nada mais lógico, porque a fruta mais distante sempre é a mais saborosa, claro. E frutas saborosas costumam causar desentendimentos. No domingo, o baile do Juventus era mais democrático, pois ficava na Moóca, então considerado por nós como território neutro.
O Clube Monza, nada mais era que um pavimento no andar superior de uma fábrica e muito pequenino para ser chamado “clube”, mas era sempre repleto de gente e as ruas dos arredores ficavam lotadas de automóveis no sábado à noite. Apesar de pequeno, todos gostavam muito, por ser bem divulgado e possuir alguns acessórios que todos adoravam - luz negra, globo de espelhos e luzes bem fraquinhas.
As seleções de músicas eram muito badaladas e tocava-se muito Bee Gees, Bread, Creedence, Beatles e coisas do gênero, nas músicas lentas. Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabath e Grand Funk eram as sensações das rápidas dançantes. Rolava também, como não poderia deixar de ser, um Yes, para aqueles que já tinham dado um tapa num baseado e viajavam na santa paz do peace and love – estes, pra lá de Bagdad.
Todo mundo tem suas noites de terror e numa dessas noites lá estava eu, completamente desprovido de amigos da turma do 7, numa maravilhosa seleção lenta, grudadinho com uma moreninha que a gente adorava dançar. Ela não empinava a bunda pra se esquivar e permitia o livre passeio das mãos, que tocavam seu corpo com a competência de um Rick Wakeman nos teclados.
No meio da seleção, sinto um toque em meu ombro e viro-me para saber do que se tratava. Era um já conhecido rival de bailes, que me alertava:
- Essa garota é minha maninha...
Sabendo onde ele queria chegar, perguntei à garota:
- Você é irmã dessa coisa?
E ela:
- Eu não, Deus me livre!
Então, o garoto deu o bote:
- Irmãzinha de consideração, cara!
Não iria deixar de dançar com aquela mignonzinha, pelo simples fato de um idiota, cheio de amigos no baile, querer encher de ciscos a minha vida. E respondi sorrindo e esperto:
- Sua mamãe também é minha consideradinha. Aliás, estou com saudade dela.
E continuei minha dança todo feliz, mas já sabendo o que me esperava.
Nem dancei mais com a mesma menina. Exatamente por saber o que viria, a todo momento, ia na janela e olhava lá embaixo. Via cada vez mais garotos de cara feia olhando para cima. Não demorei muito para planejar uma estratégia. Ficaria ali até o fim do baile, pois lá dentro estaria protegido e, com certeza, eles esqueceriam rapidamente do dentuço petulante que difamava mães alheias.
Tinham uma memória de elefante.
Perceberam que eu não sairia dali tão cedo, até porque pedi uma cerveja proibida para os meus 16 anos. Nunca uma cerveja durou tanto tempo. E a montanha veio a Maomé.
Fizeram uma fila dupla à minha frente e o comandante da tropa, atravessou entre seus perfilados e, com o dedo em meu rosto, ordenou:
- Fale agora o que disse da minha mãe!
Pensei rapidamente e percebi que qualquer estratégia rimaria com tragédia. Mostrando-me calmo, segurei firme na minha padroeira de momento – a santa garrafa – e disse ao garoto, com a firmeza e o olhar de tigre mal humorado:
- Se eu disser que falei de sua mãe, vou apanhar. Se disser que não falei, vou apanhar. E, se disser que nada falei, vou apanhar também. Só um detalhe: De você não apanho.
E acertei a garrafa de cerveja bem no meio da cabeça dele.
Nunca apanhei tanto em minha vida. Depois de levar muitos socos, catiripapos e pés-de-ouvidos cai no chão e me encolhi enquanto levava chutes. Até valeu a pena, porque num instantinho, já estava desmaiado.
Acordei no pronto socorro do Tatuapé, com uns pontos no braço e todo amarrotado. Até o espírito doía. O alivio da dor foi ver o meu rival com a cabeça toda enfaixada e a notícia que levara uns 12 pontos. Sem contar a satisfação de saber que garota alguma iria querer dançar com aquele careca bobalhão tão cedo.
Como éramos menores, o investigador de plantão no pronto socorro, sabedor que menor de idade só dá camisa suada, conformou-se apenas com uma bela bronca. E nos dispensou.
O domingo amanheceu. Na saída, os dois com caras de patetas olhavam um para o outro. Agora, já sem qualquer ódio, ele então me diz:
- Puxa, que bobagem nós fizemos. E tudo por causa de uma menina bem fuleira; de uma dança.
Pensei bem. Ele tinha razão, não havia o que discutir. Então, respondi displicente:
- É mesmo. E olha que a Rosilene nem merece toda essa encrenca. Mais parece pia de água benta; todo mundo põe a mão. Sakatrapa! (sakatrapa era uma versão nossa de menina fácil).
Indo para a casa, camisas todas sujas de sangue, ele lembra:
- Hoje tem domingueira no Juventus. Você está a fim de ir?
- Vamos nessa. No Juventus tem cada gatinha...
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texto: paulo moreira
imagem: zurab kaisidi