quarta-feira, 8 de outubro de 2008

o medo, a solidão e a linha amarela

Era um sábado à tarde e a gare do metrô estava praticamente vazia. Eu e minha amiga ficamos literalmente sozinhos numa das partes da plataforma. Quando o trem vem chegando, percebo que existe uma garota a menos de um metro de nós. Pela distância das catracas de acesso, aquilo parecia impossível. Em um segundo havia surgido do nada.
Incompreensível que, por não haver ninguém, tenha escolhido ficar quase grudada em nós.
Na chegada do vagão, encontrava-se bem à nossa frente, além da linha amarela de segurança; a composição passando a centímetros de seu rosto. Assustei-me. Sua mochila às costas me raspa o nariz.
A porta se abre e ela entra escolhendo um lugar antes de nós, mas ao nos perceber o rumo escolhido, muda a rota e senta-se num banco paralelo. Isto lhe dificultou a visão, pensei, pois novamente trocou de lugar e sentou-se num banco de frente onde, pela vista lateral, facilmente poderia controlar nossos movimentos.
Fiquei olhando aquela jovem figura que, desde então, não tirava os olhos de um único ponto do chão, enquanto eu não entendia nada do que fazia e buscava sentido em seu comportamento. Senti uma espécie de medo.
Conversávamos, eu e minha amiga, sobre Akenathon e Nefertite. Do Tutankhamon, tadinho, aleijado porque os casamentos entre parentes, na intenção de manter a pureza da dinastia, causavam esses transtornos. Da Cleópatra e o amante romano também. Viajávamos Nilo abaixo, fofocando a vida da elite egípcia.
Percebi que a movimentação estranha daquela garota colocou-me inquieto, numa situação observadora, defensiva e de alerta. Era como se houvesse pintado ao meu redor uma faixa amarela e ela houvera percebido. Começo então a pensar numa única coisa: o medo. Agira daquela forma por puro medo. De repente, compreendo tudo e me identifico com sua atitude.
A vida nos parece, por vezes uma plataforma vazia. Vazios imensos, com túneis escuros à frente, insistem em se apresentar à nossa vista. O medo da solidão das gares vazias de nós mesmos, que faz correr para junto de alguém eventualmente presente num local, mas que, paradoxalmente também assusta, pois não lhe conhecemos nada além do acaso da presença. É como se suplicássemos a proteção daquele que, por desconhecermos, também temos medo.
Queremos a sensação da segurança, na insegurança do desconhecido e por essa razão lhe vigiamos os passos, como se fosse possível conter-lhe a marcha. Ao menor movimento, novo medo.
Quantas vezes tivemos vontade de pedir uma mão para entrelaçar-se a nós, no intuito de suportarmos melhor nossa própria frieza interior?
A linha amarela no chão adverte contra o perigo. As linhas amarelas dos nossos atos impedem a proximidade que poderia dar conforto e são muito mais repressivas. Noto que essas faixas bloqueiam sorrisos, palavras ou o próprio calor da presença. Visualizo corações cercados por essa mesma faixa, nas frases que não foram ditas, na ajuda nem dada nem pedida, nos abraços e beijos que não existiram. Num amor que poderia haver brotado num jardim desprovido de faixas de contenção.
Vejo a distância do gesto infantil e natural de estar junto sem perguntar ou haver porquê. Sinto vergonha. Dos amigos que deixei de fazer, dos amores que não vivi, da quantidade de vida que possa ter perdido.
Por medo das plataformas perigosas e vazias, quanta vez cerquei-me de faixas amarelas de advertências inúteis? Quantas emoções perderam-se em meu caminho?
Sem levantar a cabeça, ela desceu numa estação. Saiu sem olhar para trás; sumiu meio a novo deserto, enquanto eu comentava com minha amiga:
- Estranha essa moça. Suas roupas também são estranhas.
Mas, ao reparar suas roupas, devia ter percebido que as faixas amareladas pelo tempo - nas quais nos enrolamos durante a vida - haviam me preparado uma irônica e incômoda sensação:
A de estar usando um traje ridículo e nada formal de múmia. A rigor.
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texto:paulo moreira

3 comentários:

Cristiane disse...

Paulo:

Vim através do blog da minha amiga Rosani,amei o seu texto porque voce expressa através dele, os nossos vázios,carências e isso nós fazem refletir os nossos comportamentos.

Cristiane

HELENA MARINA disse...

Paulo,

já me antecipei e vim ler seu texto,como sempre muito profundo, nos faz viajar pra dentro de nós mesmo e repensar certas atitudes "nossas", qtas vêzes usamos essa "linha amarela" invisível ao nosso semelhante até mesmo a alguem da nossa família criando uma certa distancia...
Parabéns pelas palavras simples e bem dosadas.

Bjinhos da sempre,
Lê.

Anônimo disse...

Olá Paulo,aqui é a Mari... ví sua entrevista de lançamento de seu livro, através do orkut da Rosani, resolví vir conhecer de perto o seu trabalho.
Que ironia ,rsrs, vir conhecer seu trabalho estando aqui, por uma pessoa que está a distância... e é super bacana. Parabéns godtei muito do que ví e Lí.Continue assim.