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quinta-feira, 2 de julho de 2009

construção

Alvenaria, cheia de massa,
O tijolo é tão fosco,
Benditas as pás
E as colheres
Bendito é o fruto
Desse batente,
João!
.
Dona Maria, Mãe de Deus,
Cuidai desses trabalhadores,
Agora e na hora
Daquele andaime, também!
.
milton carvalho cavutto 04.01.62 / 23.09.2006
.
Nunca havia pensado em primos como presentes de Deus. E Ele foi generoso comigo quando me cercou deles. Milton é um desses presentes que jamais se pode esquecer - pessoa de inteligência, sensibilidade e humor únicos. Um ser iluminado.
Aqui, uma das incríveis "sacadas" do Milton. Orgulho de ser mais que primo - amigo. Parceiro incrível.
Obrigado, Milton! Um sorriso para você!
.
imagem: ricardo espinheira - olhares.com - portugal

segunda-feira, 5 de maio de 2008

caso pluvioso

A chuva me irritava.
Até que um dia descobri que maria é que chovia.
A chuva era maria.
E cada pingo de maria ensopava o meu domingo.
E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.
Eu era todo barro, sem verdura...
maria, chuvosíssima criatura!
Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.
Era chuva fininha e chuva grossa,
matinal e noturna, ativa...Nossa!
Não me chovas, maria, mais que o justo
chuvisco de um momento, apenas susto.
Não me inundes de teu líquido plasma,
não sejas tão aquático fantasma!
Eu lhe dizia em vão - pois que maria
quanto mais eu rogava, mais chovia.
E chuveirando atroz em meu caminho,
o deixava banhado em triste vinho,
que não aquece, pois água de chuva
mosto é de cinza, não de boa uva.
Chuvadeira maria, chuvadonha,
chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!
Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo,
poças dágua gelada ia tecendo.
Choveu tanto maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa
e um rio se formou, ou mar, não sei,
sei apenas que nele me afundei.
E quanto mais as ondas me levavam,
as fontes de maria mais chuvavam,
de sorte que com pouco, e sem recurso,
as coisas se lançaram no seu curso,
e eis o mundo molhado e sovertido
sob aquele sinistro e atro chuvido.
Os seres mais estranhos se juntando na mesma aquosa pasta
iam clamando contra essa chuva estúpida e mortal
catarata (jamais houve outra igual).
Anti-petendam cânticos se ouviram.
Que nada! As cordas d’água mais deliram,
e maria, torneira desatada,
mais se dilata em sua chuvarada.
Os navios soçobram.
Continentes já submergem com todos os viventes,
e maria chovendo.
Eis que a essa altura, delida e fluida
a humana enfibratura,
e a terra não sofrendo tal chuvência,
comoveu-se a Divina Providência,
e Deus, piedoso e enérgico, bradou:
Não chove mais, maria! - e ela parou.
(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 30 de abril de 2008

se tu viesses ver-me

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

(florbela espanca)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

A Flor que fazia poemas

Um dia ainda te mostro as poesias que escrevi
Eram versos da tua ausência - meu coração turbulência
Eram retratos dos meus dias pensando somente em ti
Aqui só ficaram lembranças de quem se entregou sem limites
Meu coração - pura esperança - te ninava como uma criança
Meu corpo – puro desejo - te adorava com paixão
Minha alma - pura entrega - te amava com devoção
Ilusão que o tempo impiedoso cobrou
Sonhos rasgados de um coração cansado
Noites insones, dias sem vida...
De um passado que o tempo esgotou
Sempre hei de levar comigo - a marca que você deixou
Marca entranhada - gravada a fogo
Que um dia nos arrebatou

poesia a 4 mãos e 2 corações em Sol Maior: Pati Frozinha/Tô na esquina

domingo, 20 de janeiro de 2008

Inconstância

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...
E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando...

(Florbela Espanca)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Caso Pluvioso

A chuva me irritava. Até que um dia descobri que maria é que chovia.
A chuva era maria. E cada pingo de maria ensopava o meu domingo.

E meus ossos molhando, me deixava como terra que a chuva lavra e lava.
Eu era todo barro, sem verdura... maria, chuvosíssima criatura!

Ela chovia em mim, em cada gesto, pensamento, desejo, sono, e o resto.
Era chuva fininha e chuva grossa, matinal e noturna, ativa...Nossa!

Não me chovas, maria, mais que o justo chuvisco de um momento, apenas susto.
Não me inundes de teu líquido plasma, não sejas tão aquático fantasma!
Eu lhe dizia em vão - pois que maria quanto mais eu rogava, mais chovia.
E chuveirando atroz em meu caminho, o deixava banhado em triste vinho,
que não aquece, pois água de chuva mosto é de cinza, não de boa uva.


Chuvadeira maria, chuvadonha, chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!
Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo, poças dágua gelada ia tecendo.
Choveu tanto maria em minha casa que a correnteza forte criou asa
e um rio se formou, ou mar, não sei, sei apenas que nele me afundei.

E quanto mais as ondas me levavam,as fontes de maria mais chuvavam,
de sorte que com pouco, e sem recurso, as coisas se lançaram no seu curso,
e eis o mundo molhado e sovertido sob aquele sinistro e atro chuvido.

Os seres mais estranhos se juntando na mesma aquosa pasta iam clamando
contra essa chuva estúpida e mortal catarata (jamais houve outra igual).

Anti-petendam cânticos se ouviram. Que nada! As cordas d’água mais deliram,
e maria, torneira desatada, mais se dilata em sua chuvarada.

Os navios soçobram. Continentes já submergem com todos os viventes,
e maria chovendo. Eis que a essa altura, delida e fluida a humana enfibratura,
e a terra não sofrendo tal chuvência, comoveu-se a Divina Providência,

e Deus, piedoso e enérgico, bradou: Não chove mais, maria! - e ela parou.


(Carlos Drummond de Andrade)