segunda-feira, 5 de maio de 2008

caso pluvioso

A chuva me irritava.
Até que um dia descobri que maria é que chovia.
A chuva era maria.
E cada pingo de maria ensopava o meu domingo.
E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.
Eu era todo barro, sem verdura...
maria, chuvosíssima criatura!
Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.
Era chuva fininha e chuva grossa,
matinal e noturna, ativa...Nossa!
Não me chovas, maria, mais que o justo
chuvisco de um momento, apenas susto.
Não me inundes de teu líquido plasma,
não sejas tão aquático fantasma!
Eu lhe dizia em vão - pois que maria
quanto mais eu rogava, mais chovia.
E chuveirando atroz em meu caminho,
o deixava banhado em triste vinho,
que não aquece, pois água de chuva
mosto é de cinza, não de boa uva.
Chuvadeira maria, chuvadonha,
chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!
Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo,
poças dágua gelada ia tecendo.
Choveu tanto maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa
e um rio se formou, ou mar, não sei,
sei apenas que nele me afundei.
E quanto mais as ondas me levavam,
as fontes de maria mais chuvavam,
de sorte que com pouco, e sem recurso,
as coisas se lançaram no seu curso,
e eis o mundo molhado e sovertido
sob aquele sinistro e atro chuvido.
Os seres mais estranhos se juntando na mesma aquosa pasta
iam clamando contra essa chuva estúpida e mortal
catarata (jamais houve outra igual).
Anti-petendam cânticos se ouviram.
Que nada! As cordas d’água mais deliram,
e maria, torneira desatada,
mais se dilata em sua chuvarada.
Os navios soçobram.
Continentes já submergem com todos os viventes,
e maria chovendo.
Eis que a essa altura, delida e fluida
a humana enfibratura,
e a terra não sofrendo tal chuvência,
comoveu-se a Divina Providência,
e Deus, piedoso e enérgico, bradou:
Não chove mais, maria! - e ela parou.
(Carlos Drummond de Andrade)

Um comentário:

Josemar Pires Ribeiro -andante disse...

A cada vez que surge um escritor ou poeta, temos a tendência a compará-lo a outros autores e incluí-lo em algum grupo ou, até mesmo, lançá-lo em algum movimento literário. Na verdade, não estamos completamente errados, pois cada luz que nasce e emana seu brilho nessa constelação há que ter algum criador, algum padrão e algum estilo.
Pois é, Paulo criou-se e alcançou brilho. Por vezes, ao lê-lo, tenho a impressão de estar passeando pela minha infância; outra hora vem aquele cheiro de terra molhada pela chuva; de outra feita, aquela torrente de paixão com intenso erotismo, que faz com que minha pele se arrepie, e, por fim, aquele lirismo de uma singeleza que nos transporta para as nuvens, numa atmosfera de paz e fluidos harmoniosos.
O escritor e poeta que ora se apresenta neste universo tem uma personalidade inquieta, dona de uma inspiração inesgotável, que vai do lirismo puro ao erotismo lascivo, capaz de compor textos e versos recheados de luxúria e, também, textos e versos que nos faz recordar a infância, adolescência e o primeiro amor.
Tive a oportunidade rara de ser apresentado ao seu blogger, (Perfume de Coração) pelo blogger Alma Perfumada, que descobre tesouros culturais, e, com um misto de corpo e espírito em sintonia,incentiva aos novos astros a distribuir seu brilho e derramar energia e sentimentos à aqueles carentes de palavras, caminhos, sentimentos. Obrigado Alma Perfumada.
Citando Rubem Alves que diz: “Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração”. É o que demonstra o escritor e poeta Paulo, este astro com origem e sem fim em sua trajetória, vai mostrar ao mundo a realidade do trabalho com amor.

Andante.