quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

De Homo Sapiens a Daktylus Erectus

Ser contra a modernidade não é apenas falta de bom senso. É não saber viver neste mundo. Mas, certas coisas do passado têm um valor imenso e de algumas dessas coisas, sentimos falta. Não se trata de saudosismo, idade avançada, nada disso. Trata-se de ver um mundo em transição e, por vezes, perder a referência de valores.
Adão e Eva são bons exemplos disso. Pode hoje, haver variações de estilo, de funções, de genética, mas convenhamos:
- A configuração original é muito boa.
Nada em detrimento de novas versões; sejam todos bem vindos. É como o Windows. Tem uma porção deles, mas tem gente que não troca um XP por um Vista nem sob tortura.
Se Caim tivesse um controle remoto em mãos ou o teclado de um PC, talvez não brincasse de matar irmãozinho. A tecnologia avançou para a melhoria da nossa qualidade de vida.
Pensava nisso durante uma aula de matemática. Enquanto o professor explicava rapidamente sobre conjuntos, equações, etc. Gastava o triplo do tempo ensinando como usar as calculadoras. Percebi uma coisa muito séria:
Algumas cabeças entendem um pouco de matemática, mas o dedo indicador é um fracasso quando se trata de calculadoras. Até entendem o cálculo, mas têm dificuldades entender a linguagem desse ser dotado de teclas. Outras, não entendem nem o cálculo, tampouco a calculadora. Existem dedos completamente desajustados.
Originalmente, usava-se o dedo para várias funções. Escrever poemas na areia, arrancar chantilly de bolos, limpar o nariz e dedurar a irmã. E entre outros afazeres próprios de um dedo indicador, usávamos para chamar a professora de matemática, pedindo explicações sobre a falta de raciocínio sobre um cálculo qualquer. Tadinha. Ela explicava.
Nesse tempo, que não vai tão longe assim, era proibido o uso de calculadoras em salas de aula, em provas, em concursos públicos e em namoros. Ensinava-se matemática sem anestesia mesmo e isso nos obrigava aprender a usar o cérebro. Não sei se aprendemos, mas por romantismo talvez, alguns ainda preferem tentar resolver equações à unha, com o perdão do trocadilho. Para os dedos, aprendíamos datilografia. Talvez no futuro, aprendamos “dactilosofia” (a ciência dos dedos).
Hoje, existem momentos em que ficamos sem saber quem nasceu primeiro: o ovo ou a teclinha.
Se nossa cabeça der pane, até esperamos alguns meses para procurar um psiquiatra ou uma psicóloga. Mas, se nosso PC ou a calculadora apresentarem defeito, o conserto tem que ser no mesmo dia. Será que nossa inteligência passou procuração para as máquinas? Nossa mente era analógica e está sendo digitalizada?
Tudo que não se usa, atrofia. Músculos, vísceras, o cérebro.
Sob o pretexto de deixar o cérebro para coisas mais importantes, acabamos deixando o ato de pensar (que, a propósito, não pesa) para nosso, antes humilde, dáctilo. E ele vem respondendo à altura, incorporando linguagens de HPs e IBMs da vida. Não importa saber o que ou o quanto é um número. Dedinhos amestrados passaram a ser sinônimo de inteligência. Ai de nós! Deixamos a cabeça no automático e ela vai como pode; enquanto pode. Pensa de teimosa. Assim como todo o resto, inclusive o coração.
Por sua vez os nossos dedos, de tanto uso, fortaleceram-se. Tornaram-se rígidos, eretos e imponentes. Orgulhosos e arrogantes, andam racionais demais. Tão ocupados que foram perdendo suas capacidades mais primárias. Por exemplo:
-Fazer contas com auxílio do link natural, xingar no trânsito, roubar chantilly ou simplesmente fazer um carinho.
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texto: paulo moreira

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

"perfume de coração" recebe o selo "olha que blog maneiro"

"Perfume de Coração" recebe, e agradece a distinção, o selo que vem da Itália, através do blog "Utopie Calabresi" - http://utopiecalabresi.blogspot.com/

Os 10 blogs abaixo foram indicados por "Perfume de Coração" para receberem este selo:

Fragmentos da Alma – http://reverereviver.blogspot.com/
InFocO – http://vivi-infoco.blogspot.com/
Minha obra-prima: Minha vida – http://kamilasarto.blogspot.com/
Na Dança das Palavras – http://leonorcordeiro.blogspot.com/
Pérolas que Colhi, Flores e Poesias – http://pati-prolasqescolhi.blogspot.com/
Poesia com Emoções – http://poesiacomemocoes.blogspot.com/
Porto das Crônicas – http://taisluso.blogspot.com/
Solucionática – http://solucionatica1.blogspot.com/
Sou Essência sem Fronteiras – http://souessenciasemfronteiras.blogspot.com/
Um Vento na Ilha – http://schsonia.blogspot.com/

As regras a seguir para os blogs que recebem este Prêmio são:

1- Exiba a imagem do selo "Olha que Blog Maneiro"
2- Poste o link do blog que te indicou.
3- Indique 10 blogs de sua preferência.
4- Avise seus indicados.
5- Publique as regras.
6- Confira se os blogs indicados repassaram o selo e as regras.
7- Envie uma fotografia sua ou de um amigo para olhaquemaneiro@gmail.com juntamente com os 10 links dos blogs indicados para verificação. Caso os blogs tenham repassado o selo e as regras corretamente, dentro de alguns dias você receberá 1 caricatura em P&B.
8- Só é válido caso as regras tenham sido todas cumpridas.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

baliza

Baliza morria de amor. Pelo Geraldo.
Pouco importava se ele era beberrão, jogador inveterado, homem de mil vícios e mil mulheres. O importante é que Geraldo gostava dela e, vez por outra, lhe fazia um carinho.
Dono da Fazenda da Serra, Geraldo negociava gado e vivia do trabalho sem horário, sem patrão e sem limites. Na cidade, era Juiz de Paz. Fazia casamentos, resolvia discórdias de todo tipo e, eventualmente, ia atrás de algum sujeito bom de conversa, para criar concórdias - com sua lábia ou revólver - sobre a livre e espontânea vontade de casar com a moça semi-virgem de família honrada.
Todo dia, Baliza o acompanhava a quase todos os lugares e junto dele sentia-se feliz por andarem descompromissados de tudo naquela pequena cidade, pouco ligando quando o cavalo, já escolado, parava em cada bar que pudesse existir. Escala para mais uma caninha, um cumprimento, uma dama de vinte minutos ou um tiro em mais um.
Paciente, ficava andando pela praça da igreja matriz, passeando faceira e olhando tristinha as pessoas da praça, com a resignação dos que passam os dias esperando por migalhas de amor; por um sorriso ou pela alegria de ver seu nome pronunciado rapidamente por ele. Humilde e tolerante, aguardava ansiosa a saída do Geraldo de cada lugar. Satisfeita com o simples fato de ficar próxima de quem tanto amava.
Baliza era assim. Baliza amava assim.
Nas noites de insônia na varanda, ficava olhando o semblante daquele homem, como que hipnotizada pela fascinação, procurando talvez, descobrir-lhe as inquietudes.
Quando Geraldo vestia o paletó de tecido grosso e punha seu chapéu Panamá, alegrava-se por saber ser o momento de saírem, exceto quando ele dizia ir jogar. Não ia junto nessas ocasiões, que não eram poucas. Ele chegava a ficar três dias e três noites seguidas jogando baralho e apostando dinheiro. Bom jogador, não costumava perder.
Nessas vezes, precisava ficar na casa da fazenda porque, no caso de aparecer algum comprador ou vendedor, era ela quem iria na fazenda do Chico Nego ou outra qualquer onde ficava a jogatina, para avisar e trazer de volta o seu querido. Bastava a Benedita dizer:
- Baliza, vá buscar o Geraldo que tem gente querendo falar com ele!
Pura alegria. Lá ia pela estrada, morrendo de felicidade por poder ajudar mais uma vez, o homem de sua dedicação de vida. A sua razão de viver.
Invariavelmente o encontrava já cheirando à destilado forte e perfume de alguma mulher de ocasião, porém, nunca bêbado. Geraldo parecia impermeável com bebidas. O máximo que acontecia era ficar mal humorado com a interrupção do jogo por Baliza e resmungar-lhe uns palavrões. Mas, só se estivesse perdendo muito no jogo. Se não, vinham alegres e brincando pelo caminho, pensando no bom negócio que esperava em casa.
Um dia, numa cerca de arame farpado, Geraldo machucou-se e contraiu tétano. Foram 40 dias naquela cama. Ironicamente, aquele homem forte de 33 anos, com caráter e temperamento únicos, ia sendo derrubado pelo que menos se podia esperar: a doença.
Durante todos esses dias, Baliza ficou ao seu lado. Abatida e muda, passava dias e noites com os olhos caídos como quem faz a oração do desespero. Pouco comia e mal conseguia tomar um pouco de água. Deitada ao lado de quem tanto amava, sofria calada, sem protesto ou queixa.
No meio da sala, uma pessoa levantava o véu preto sobre o caixão. Era a única coisa que fazia com que levantasse os olhos, sentada alerta sobre aquele banco; protegendo, a seu modo, aquele que não mais de proteção precisava. Seguiu todo o cortejo ao lado do caixão.
Quando tudo terminou, todos voltaram às suas casas. Menos Baliza.
Deitada sobre o túmulo, ali ficou por horas, dias. E, por mais que tentassem, não conseguiam retirá-la de lá, convencê-la a comer algo ou sequer tomar água. Nesse tempo, cada momento vivido deve ter passado por sua cabeça e, acredito, nem ela se sabia capaz ou o porquê de tanto amar.
Um certo dia o sol se pôs e alguém a encontrou já no fim de sua agonia. A fiel cadelinha morria sobre o túmulo de seu dono.
Baliza morria de amor. Pelo Geraldo.

texto: paulo moreira

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

tomates-cereja

Na mesma semana em que a conheci, ganhei alguns tomates. Uma versão pequenina dos comuns. Lindos tomatinhos.
Encantado com sua beleza – a mulher – num instante plantei-a em mim. Precisava tê-los sempre comigo - ambos. Ah! Aquela nova cor de vida, a pele, a delicadeza, aquele novo gosto adocicado.
E espalhei suas sementes em meus territórios. As de tomates, no jardim em frente ao quarto; as dela, num jardim sem cuidados dentro em mim. Terras difíceis, jardins de sonho sem adubo.
Tomates-cereja e amor são plantas resistentes - que insistem em brotar sempre. Num dia de primavera olhei da janela e descobri algumas pequenas folhinhas explodindo da terra. Lembrei-me dela – estávamos sempre unidos - e vi que também soltava folhinhas tenras, nas minhas terras quase áridas. Como é lindo poder desfrutar do milagre das sementes. É possuir quase toda a beleza do mundo.
Começavam dois ciclos de semeaduras que nunca imaginei serem tão parecidos. Sorri para a vida. Meus jardins prometiam fartura. No final da primavera, abandonei meus pés de tomate-cereja, o quarto, o jardim, tudo. E fui ao encontro da planta que mais cresceu: o amor daquela mulher que possuía a magia das sementes.
Não sabíamos quem era quem; quem plantava ou cuidava. Éramos sementes e semeadores simultaneamente. Se, por um lado, o agricultor é responsável pela planta, por outro, a planta passa a ser a luz dos seus atos. Se o primeiro rega folhas e raízes ou deixa que as chuvas dêem provimento, a outra lhe lapida a essência e traz o evoluir dos ramos de sua humanidade. A natureza faz, com humildade e perfeição, o que alguns de nós não conseguimos, às vezes, por imposição do egoísmo.
E dessa mulher conheci o néctar, me encontrei em seu corpo, desfrutei seu sabor. O mesmo ela o fez comigo. Retirou minha pele grossa para apaziguar meu sumo. Plantou-me dentro de si e nos fizemos uma só árvore.
Árvores, quando tiradas de sua cova de origem, reagem ao novo lugar. Assim, momentaneamente, voltei para meu antigo solo seguro e encontrei meus pequenos pés de tomate-cereja em flor. Retirei os matos em volta, os empecilhos e lhes dei arrimo. Vieram os frutos. E da minha plantinha provei o néctar, desfrutei sua polpa e saboreei seu suco. Meus pequenos frutos tiraram-me a acidez da alma na sua lição dos ciclos. Cultivaram em mim, tanto quanto ela, o amor. Juntos, os três, apesar da distância. A grande árvore e a pequena planta totalmente diferentes em sua aparência, mostravam-se iguais em suas estações não compromissadas, entre si, com o tempo.
Ambos seguiam ensinando-me caminhos. Havia me descoberto como uma planta buscando o sol. No final do outono seguinte, o tomateiro secou. Em certo tempo, ela também desaparecera. Depois, resssurgíamos fortes e renovados, como sempre, para novas estações de novas experiências e novos frutos. E assim foi continuadamente.
Voltado para meus problemas e indiferente ao que me cercava, deixei que os matos crescessem e, por falta de meus cuidados, os tomateiros que tanto quis estavam pelo chão sem sustentação e quase sem vida. Condenados por mim. Um senhor que cuida de jardins, apiedou-se das plantinhas que teimavam, ainda assim, em florir e deu-lhes estacas para apoio, arrancando as ervas daninhas em volta. Veio a chuva e os tomates-cereja voltaram a brotar ainda mais lindos.

Mas eu sabia que era diferente. Seus frutos não mais me pertenciam, a não ser por circunstância. Nunca estiveram tão lindos ou responderam tão bem ao cuidado recebido. Em nenhum momento haviam deixado de ser meus pés de tomates-cereja. Durante o tempo todo, eu é que deixei de ser seu cultivador.
No entanto, suas fortaleza e determinação não se deixaram abater pela minha ausência de atitude. Alguns podem estar marcados, mas estão vivos e confiantes em sua missão de tomates e apenas por generosidade para comigo permanecem num território sob meu domínio. Talvez, um gesto de gratidão pelas sementes na terra colocadas um dia, embora abandonadas ao sabor das intempéries.
Quanto aos frutos, não quero e não posso mais provar-lhes e assim será. Não lhes fiz juz.
Quanto a mim, não sei nem plantar, nem amar.
Os pássaros espalharam suas sementes que agora brotam em novos pontos. Tentarei ajudá-los a obter seu alimento, cuidando com um pouco mais de amor e zelo - das minhas plantinhas. Isso os fará mais felizes: os tomatinhos e os pássaros. A mim também.
É possível reparar o sofrimento causado aos tomates-cereja.

texto - paulo moreira

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

mais grave que a cegueira

A cena foi muito rápida. Voltava para casa num desses finais de tarde com muita pressa, dessas sem explicação, típica de paulistano. Na avenida, com seis faixas de rolamento de veículos em cada sentido, todos vinham numa velocidade bem alta.
De repente, o motorista do carro da faixa ao lado, pouco mais à minha frente, começa desesperadamente a fazer gestos com a mão para fora, pedindo redução de velocidade. Imediatamente meu pé foi para o freio e imitei-lhe o gesto, pedindo o mesmo aos outros. Assim, sucessivamente, todos fizeram o mesmo e os carros foram parando, um a um.
Com o braço esquerdo estendido para baixo e a palma da mão em direção ao chão, o cego fazia um sereno gesto de “por favor, espere um pouquinho” e atravessava, com toda a paz do mundo, aquela enormidade de avenida - munido de uma bengala e confiança nas pessoas. Certamente, com fé em Deus também. Simultaneamente, balançava a cabeça e era possível ler em seus lábios a pronúncia do “muito obrigado”.
Por uns dois minutos, ficamos parados e abobados vendo aquela cena, até que ele terminasse sua tranquila travessia. Olhávamos uns para os outros com cara de quem não sabe que cara fazer e retomávamos, movimentando os carros vagarosamente, rumo aos nossos destinos.
Aquele homem havia conseguido o que nem mesmo um guarda uniformizado e com um simples apito conseguiria. Com um apito e uma metralhadora, talvez. Quem conhece uma cidade como São Paulo, sabe exatamente a proporção do que estou dizendo.
Pernas trêmulas, mal consegui engatar a marcha e entrar na primeira travessa para estacionar. Debrucei sobre o volante e comecei a chorar. Chorei muito e, ao ser questionado por uma moça sobre a razão daquele choro incontrolado, apenas murmurava:
- Deus, o que é justo? O que é justo?
O que mais mexia com meus sentimentos era a dependência do cego da boa vontade das pessoas e da confiança dele no ser humano, afinal, qualquer um poderia não ter se dado conta do que acontecia e tê-lo atropelado. Uma desatenção mudaria seu destino e o destino de outras pessoas. Cada pensamento sobre aquela fragilidade e exposição ao perigo me emociona até hoje. A cegueira foi sempre algo que mexeu profundamente comigo. Ambas.
A propósito de alguma eventual interpretação diversa, uso a expressão “cego”, em vez de “deficiente visual”, por achá-la mais adequada. Na razão direta em que não gostaria de ser tratado como um “deficiente de visão mental”; prefiro ser chamado de burro. Doar órgãos e amar o ser humano parece-me politicamente mais correto e eficiente, que mudar nomenclaturas. Palavras podem servir de lentes para o espírito. Atitudes curam lá e cá.
Voltando ao fato.
Onde já se viu fazer uma coisa daquelas? Uma pessoa com visão não ousaria jamais aquilo. Por que razão ele teria feito aquilo? Pressa, emergência, idiotice? Mas, de tudo, o que menos entendia era a sua calma e serenidade.
Num certo momento, passamos a ter uma nova visão das coisas. Não que a atitude daquele homem fosse absolutamente correta, mas provoca algumas reflexões. Tantas vezes na vida deparamos com o sofrimento alheio e sequer reduzimos a marcha. Quantos amores, quanto querer bem perdidos em nossa estrada. E lamentamos, lamentamos.
Somos desconfiados do sentimento, do agir, do pensar, do falar, do viver – entre outras coisas – de quem nos cerca. Poderíamos ter atravessado nossos caminhos de uma maneira mais tranqüila, mais serena. Ter aquela postura humilde e ao mesmo tempo solene que todo cego possui. Essa postura é quase única, talvez pelo fato de precisarem enxergar além do que nós, pobres enxergantes, possamos.
Imagino a alegria daquele cego ao se saber do outro lado, são e salvo.
Maior que o medo de ter seguido em frente, teve a mágica sensação de que ter confiado no ser humano e ter-se exposto, valeu muito. Valeu tudo. Sempre vale.
As vezes em que morremos nas calçadas do existir, acabam sendo bem pior que ter seguido em frente. Podemos ter decepções, mas nada que supere a alegria de sentir daqueles que nos cercam, suas surpreendentes atitudes. Maravilhosa descoberta.
É preciso amar e acreditar em quem está junto de nós. É preciso saber que o mundo é cheio de vielas e ruas escuras, mas escolher avenidas e atravessá-las sem medo é obrigatório. Coração não possue olhos de enxergar. Entretanto, tudo vê. Costumo brincar, dizendo que fazer amor nada mais é que dois corpos conversando em Braille.
Percebi que, naqueles dias, chorei por um homem cego. Depois, dei por mim e, vi que continuo chorando por um homem cego. Com vergonha das economias de sentimentos, me propus escolher e atravessar meus caminhos com maior confiança na escolha.
Pela ousadia, pode ser que vez por outra, a gente venha a se encontrar em algum hospital, com alguns arranhões e hematomas. Orgulhosos porque, grave ou não, fomos atropelados na maior avenida do mundo:
Uma avenida chamada Amor.

texto: paulo moreira


***
Complementando o texto:


Como tratar deficientes visuais corretamente

Ofereça sua ajuda sempre que um(a) cego(a) parecer necessitar. Mas não ajude sem que ele(a)concorde;

Sempre pergunte antes de agir. Se você não souber em que e como ajudar, peça explicações de como fazê-lo;
Para guiar uma pessoa cega, ela deve segurar-lhe pelo braço, de preferência no cotovelo ou no ombro. Não a pegue pelo braço: além de perigoso, isso pode assustá-la. À medida que encontrar degraus, meios fios e outros obstáculos, vá orientando-a. Em lugares muito estreitos para duas pessoas caminharem lado a lado, ponha seu braço para trás de modo que a pessoa cega possa lhe seguir;
Ao sair de uma sala, informe o(a) cego(a); é desagradável para qualquer pessoa falar para o vazio. Não evite palavras como "cego", "olhar" ou "ver", os(as) cegos(as) também as usam;
Ao explicar direções para uma pessoa cega, seja o mais claro e específico possível. Não se esqueça de indicar os obstáculos que existem no caminho que ela vai seguir. Como algumas pessoas cegas não têm memória visual, não se esqueça de indicar as distâncias em metros (por exemplo: "uns vinte metros para a frente"). Mas se você não sabe corretamente como direcionar uma pessoa cega, diga algo como "eu gostaria de lhe ajudar, mas como é que devo descrever as coisas?", ele(a) lhe dirá;
Ao guiar um(a) cego(a) para uma cadeira, guie a sua mão para o encosto da cadeira, e informe se a cadeira tem braços ou não;
Num restaurante, é de boa educação que você leia o cardápio e os preços;
Uma pessoa cega é como você, só que não enxerga; trate-a com o mesmo respeito que você trata uma pessoa que enxerga;
Quando você tiver em contato social ou trabalhando com pessoas portadoras de deficiência visual, não pense que a cegueira possa vir a ser problema e, por isso, nunca as exclua de participar plenamente, nem procure minimizar tal participação. Deixe que decidam como participar. Proporcione à pessoa cega a chance de ter sucesso ou de falhar, tal como qualquer outra pessoa;
Quando são pessoas com visão subnormal (alguém com sérias dificuldades visuais), proceda com o mesmo respeito, perguntando-lhe se precisa de ajuda, quando notar que ela está em dificuldade.


Fonte das informações complementares: Associação de Cegos Louis Braille, site: http://www.deficientesvisuais.org.br/Aclb.htm

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

no meio do caminho havia uma sirene

Debaixo daquele salto havia uma unha encravada. Sim, havia uma unha encravada debaixo daquele salto. Era a minha unha do dedão do pé direito para fora um pouquinho da mesa, enquanto ouvia o cantor dando uma pausinha com um poema de Drummond. Era um barzinho noturno chamado “Balcão de Pedra”, na região de Santa Cecília, em Sampa, no qual eu adorava passar as madrugadas de sexta para sábado. E ela veio se afastando, mais e mais, até que numa bushística demonstração de pontaria cravou aquele saltinho de uns 12 cm bem sobre minha sofrida unha. Soltei um grunhido sufocado, daqueles à beira de um vexame, enquanto ela caia sobre o meu colo. Mas, toda beira de vexame é escorregadia e a cadeira virou com nós dois. Prejuízo total. Esparramados sobre meu corpo - o meu whisky, cheinho e recém-entregue pelo garçon, na camisa: a cuba-libre, que ela segurava, como fosse shampoo para meu cabelo: incômodas pedrinhas de gelo e uma também incômoda bunda sobre o meu peito, tirando-me o fôlego.
A imagem que se vê de baixo para cima quando todos estão rindo de você, parece filme de terror. Todos rirem não me importava tanto quanto ela gargalhando largada sobre mim. Parece ter demorado séculos para que visse minhas mãozinhas acenando para que saísse dali o mais urgente possível. O galo na parte de trás da cabeça, deu-me a sensação de ter me erguido pelo menos uns 10 centímetros do chão. Não sabia se ria ou chorava, ou o que doía mais: a unha encravada, a cabeça, o peito ou o mico.
Terminada a sessão de crise de gargalhadas, deu-me a mão e levantei-me meio zonzo e meio rasgado.
- Ei, desculpe. Machuquei você, né? Meu Deus, como sou desastrada! Acho que estou zonzinha...
Estava morrendo de raiva, mas ao ver aqueles olhinhos azuis de cãozinho arrependido, resolvi não esticar o drama. O jeito era rir também, até para poder minimizar o mico.
- Machucou sim, caso não tenha percebido. Zonzinho, agora também estou... Você assistiu Terremoto? Está passando no Cinespacial.
- Desculpe, não consigo parar de rir. Qual o seu nome?
- O que restou de mim, chama-se Paulo. Tornados sempre têm nome de mulher, qual o seu?
Estendeu a mão direita:
- Silene, muito prazer. Paulo, por favor, me perdoe. Diz que me perdoa?
Quem então desatou a rir fui eu. Sirene, ora, sirene!
- Espero que seja a Sirene de uma ambulância. Estou precisando.
E fiquei gargalhando feito um idiota da minha própria piada. Não tive resposta. Aqueles olhos azuis estavam marejados. Linda mulher, me dei conta. Percebi que ela rira o tempo todo de nervosa. De vergonha pelo que provocara e por estar um pouco “altinha”. Agora estava perdida e triste. Estava sendo muito cínico com ela, afinal não havia sido proposital.
- Sirene, vem cá. Sente aqui comigo e nossos amigos. Sua cuba estava gostosa. Vou pedir outra e outro whisky, assim brindamos ter nos conhecido.
- Obrigada, Paulo. Vou pedir uma toalha para secar você. Tem certeza que não precisa ir a um pronto-socorro ou farmácia?
- Nada que uma boa noite de sono não cure.
E foi assim que conheci Silene. A quem passei chamar “Sirene”, para os amigos.
Não conseguia imaginar como uma garota tão desastrada e desligada pudesse ser aeromoça. Isso. A avoada Silene era aeromoça. Não demorei muito a perceber que tínhamos uma espécie de sina, uma escala pela vida.
Por volta das quatro e meia da manhã, vou levá-la para seu apartamento. E lá mesmo ela conseguiu recuperar minha roupa cheirando bebida, meu humor, meu romantismo e a integridade física com uns pinguinhos de merthiolate. Acordo em torno de 11 horas da manhã com uma cotovelada no olho, advindo de uma virada brusca de uma agitada dorminhoca.
- Ei, amor. Já acordado? Por que acordou tão cedo?
Ponho-me a rir e ela imagina que estou rindo da cena da madrugada no “Balcão de Pedra”. Nada disse. Não queria criar mais cenas de constrangimento.
- Deve estar cansado. Seus olhos estão fundos...
Os dias foram passando e entre as escalas de vôo e os fins de semana, ela ligava e passávamos horas ao telefone. Minha mãe ficava doidinha. Três, quatro horas falando com a aeromoça.
Mas, nossa saga não pararia por aí. Certa noite, surge na porta de casa:
- Vem. Uma amiga me falou de um motel muito legal. Teto solar sobre a cama, banheira do tamanho do nosso amor, colchão d’água, cozinha árabe, essas coisas. Tem que ser agora, anjo! Hoje, sua Silene quer aterrissar sobre você.
- Vê lá. Cada aterrissada sua eu saio todo quebrado.
Rimos juntos.
Mas, parece que uma nuvenzinha sempre nos perseguia. Nesta noite, não cheguei a ver estrelas por 10 minutos. Começou a garoar sobre nossa cama. Levantei-me então para apertar o botão que fechava o teto solar (ou lunar), enquanto ela permanecia deitada sobre o colchão d’água. Pulei para o alto e caí deitado sobre a cama. Com o repuxo do colchão d’água, vi minha musa decolando rumo ao alto e caindo estatelada sobre o chão. Novamente não sabia o que dizer. Ela me olhava assustada com a saída forçada. Foi difícil segurar o riso e percebendo isso ela dava pequenos socos no meu peito:
- Vingou-se agora? Está feliz?
O jeito foi convidá-la para um banho. Da ducha só saía água gelada, ela reclamava. De frente para ela, disse para abrir toda a água quente e ir fechando a fria aos poucos. Fechou toda água fria.
- Agora sim, amor. Ta uma delíciAIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII UIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII. AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH ME QUEIMEI TODAAAAAAAAAAAAAAAAA.
E queimou-se mesmo. Suas costas vermelhas davam dó de ver. As lágrimas escorriam por sua face. Estava patético vê-la sentada no vaso sanitário, desprotegida e nua, chorando desconsolada. Sem poder rir.
Antigamente o castigo vinha a cavalo. Nos tempos das aeromoças, o castigo começou a vir de Boeing. O meu não tardaria. Algo, como uma Sirene, dava-me um alarme que viriam mais coisas.
Continuávamos nas conversas telefônicas. Quando Silene ligava, corria para meu quarto e trocávamos juras de amor por horas e horas. Certo dia, toca o telefone e minha mãe grita:
- PAULOOOOOOOOOOOOOOO, TUA SIRENE NO TELEFONEEEEEEEEEEEE.
Meu quarto ficava no andar superior. Tinha que passar pela cozinha, subir as escadas e ir para o quarto. No início da escada havia uma quina de mármore a uns 25 cm do chão.
No meio do caminho havia um mármore; havia um mármore no meio do caminho. Nem é necessário dizer que na correria doida, bati aquela parte nobre - o filé mignom de cima do dedão, querido Drummond. Que dor lancinante, que inferno de Dante! (valeu a rima). Mas, naquele momento o que veio aos lábios foi um glorioso palavrão interrompido:
-PUTAQUIP.....
Enquanto agachava-me xingando, para apertar o dedão de unha encravada, que doía mais que encontrar a mãe nos braços do inimigo fumando o cigarrinho do depois, meu joelho bateu no queixo e ganhei ainda de brinde uma bela mordida na língua, que abriu na hora, jorrando sangue pela minha boca. A unha encravada também cortou o dedão e sangrou. Até hoje não esqueço minha mãe:
- Ta vendo, filho? Xinga. Xinga que Deus castiga!
Rolei pelo chão sem saber se ria, se chorava, se xingava ou se morria. Por fim murmurei baixinho, para nem minha mãe e nem Deus ouvirem direito:
- Merda...
- Não vai atender a moça, filho?
- Ah, mãe, eu quero que a moça... que a moça vá... que a moça vá... me ligar outra hora. Agora não. Diz praquela anta voadora que outro dia eu ligo. Essa mulher parece praga do Moisés. Isso não é amor. É infecção.
Passados alguns dias, minha mãe distraidamente pergunta:
- A tua Sirene não ligou mais. Por que não fala mais com ela, filho? Foi bom o que aconteceu aquele dia, pois conseguimos cortar o canto da unha encravada. Têm males que vêm para bem.
- Tem males que vem para estrepar a gente, mãe! Para não dizer outra coisa!
- Ué, tanto grude e agora assim? Esqueceu sua menina-ambulância? Desmancharam?
- Não, mãe. O problema é que, qualquer dia, ela viria me ver com avião, tripulação, passageiros e toda a VARIG. Acho que no quintal não vai caber. Não desmanchamos.
Pensei melhor e concluí:
- Tivemos alta um do outro.

texto: paulo moreira

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

morrer de amor

Os dias sem esse alguém são aqueles dias de frio
De mãos trêmulas, dos músculos enrijecidos
Da boca repuxada, ar gelado quase assobio
Busca de mãos quentes, de calores perdidos
Crônicas insônias, cobertores que não suprem
Frios na alma são chicotes de gelo em couro
Andar descalço em desertos invertidos que nevam
É procurar carinhos e apenas encontrar vácuos
Câmara fria que nos mantém o corpo inerte
Abaixo de zero, nada se move, nada diverte
São as árvores sem folhas, arrasadas pelo gelo
É saudade congelada, queimando em desespero

Os dias sem esse alguém são as noites escuras e horríveis da solidão
Insistem nossos braços gelados tateando em cegueira pura
Tenebroso, o medo revolto dentro de nosso próprio porão
E atravessam o quarto os sons agudos da amargura
São os lamentos do que não se fez; são remorsos
Morrendo, frases sem luz perdendo palavras
Capuz sufocante que castra os olhos
Entrecorta o fôlego, traz lágrimas
Tudo então torna-se pequeno
A vida perdendo a razão
Congelados os restos
Sem brilho, assim:
Sem gestos
Escuridão
Fim

paulo moreira